Quinta-feira, 15.05.25

Não há cartéis...agora ( III)

Screenshot 2025-05-13 at 17-02-13 viciouscircle-e.

Este ciclo começa com a fumigação com paraquat, ou Gramoxone  no seu  nome científico 1,1'-dimetil-4,4'-bipiridina-dicloreto .

México. Nos três anos seguintes ao início ( 1975)  da Operação Condor ( tem o mesmo nome da  sinistra sul-americana e tem coisas em comum), 39 helicópteros Bell ( 206 e 212) e 22 aviões ligeiros  foram usados em reconhecimento e fumigação. Entre dez a  doze mil campos de marijuana e papoila foram atingidos. Em Julho de  2000 ainda decorriam accções de fumigação em Chihuahua. A imprensa mexicana relatou inúmeros problemas de saúde pública incluindo morte de crianças. Por ironia, anos mais tarde o uso de pequenos aviões foi popularizado pelos traficantes: se dá para destruir, dá para transportar. Sempre a aprender.

A história vem de trás com a Operação Intercept lançada por Nixon em Setembro de 1969. Ao longo dos 2.000 km de fronteira todos ( enfim...) era revistados. O alvo: a perigosa marijuana. A administração Díaz-Ordaz, assustada com as consequências na economia da fronteira,  resolveu juntar-se à festa e organizou a sua própria operação: Canador ( acrónimo de canabis adormidera). E chegamos à prá-história dos famosos cartéis mexicanos: Alta e Baixa Sinaloa.

Dos anos 40  até à operação Condor, Sinaloa fornecia ópio e marijuana aos EUA. O ópio foi essencial à produção de morfina durante a Segunda Guerra Mundial, a marijuana imprescindível à famosa contra-cultura dos anos 60. Uma elite agro-industrial, um estado longe do governo central, governadores corruptos :Valenzuela, Velasquez e depois Celis ( 63-68).

Muito bem explicado:

La construcción de las redes de parentesco, vecinales y comerciales, expresadas a manera de clanes, es también un acto racional, así fue posible mantener vigente el narcotráfico y consolidarse en la región, mismo que a través de la siembra, comercio y tráfico de opio y mariguana se convirtió en una práctica cotidiana para los habitantes serranos, lo cual propició el fortalecimiento de una identidad en torno al oficio y con ello la formación de clanes motivados por intereses comunes.

Se trata de un acto racional, puesto que los reglamentos o códigos construidos por los integrantes de las redes apuestan a una identificación con el terruño, es por eso que entre relaciones vecinales y de parentesco
existe también la necesidad de que prevalezca el negocio de la droga, ante la idea de que son los lazos de sangre vinculados con el lugar de origen los que afianzan, a su vez, los intereses comerciales.

 

Em Sinaloa, Chihuahua e  Durango, meados dos anos 70,  o tráfico era gerido pelas famílias  Favela, Macías, Herrera, Valenzuela, Quintero, Romero e Sicilia Falcón e em menor grau pelas  Leyva, Aispuro,
Alvarado, Jasso e Hernández  ( "12 clanes Mexicanos en el tráfico de heroína,” Proceso, Junho 25, 1977). Dez anos depois não existiam.

Alberto Sicilia Falcón, quando foi detido, afirmou trabalhar para a CIA. Era cubano e explicou ter estado envolvido no fornecimento de armas para a guerrilha anti- Castro em troca de liberdade de movimentos na sua base narco em Tijuana. Verdade ou não, o certo é que um seu associado era José Egozi Béjar, operacional treinado pela CIA e veterano da Baía dos Porcos na Brigada 2506.

A operação Condor dinamitou a estrutura de cultivo de marijuana e ópio ( esta em menor escala), moveu o tráfico para Jalisco e Guadalajara e criou as bases dos cartéis mexicanos que todos conhecem da televisão e do cinema. Não foi uma criação dos imperialistas americanos, como querem os fanáticos mexicanos que depois reduzem os compatriotas a bonecos, mas foi consequência da política norte-americana. Nada de novo de resto como escrevi há uns anos.

No próximo, e último, número desta série, veremos a instalação dos cartéis e por que motivo digo que hoje em dia já não existem.



 

 

 

 

 

publicado por FNV às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 03.05.25

Não há cartéis... agora ( II)

Os narco sul e centroamericanos ( sejam colombianos, mexicanos etc) são uma novidade na longa narcohistória. Durante muitos séculos os narcos foram sobretudo  portugueses, holandeses, ingleses e espanhóis.

 

Peru and the United States

 

Alfredo Bignon, farmacêutico peruano, foi o inventor da PBC ( pasta básica de cocaína ) em 1885, a resposta andina à síntese europeia. No rescaldo da WW II, e preparando a ofensiva final da Single Convention de 1951,  os EUA  suportam o regime de Manuel Odría. A ligação dos EUA ao Peru remonta à Guerra do Pacífico ( 1879-84), os americanos ajudando os peruanos no Tratado De Lima, de 1929, a recuperar terras perdidas ( Tacna) para o Chile. Sob os mandatos de Léguia, a colaboração institucionaliza-se em termos militares mas também económicos: Edwin Kemmerer, o Money Doctor de Princeton, é enviado para Lima para ajudar à festa. Entre 1950, já com Odría no poder, e 1965 o Peru recebe 59,3 milhões dólares de ajuda militar americana.

Durante os anos 60 e 70, tanto o Peru como a Bolívia ( a Junta Militar de Barrientos em 1964), e depois o Chile com Pinochet, todos regimes apoiados pelos  EUA, alinham na repressão à produção de coca: no Peru é do alto Huallaga que ela irá  devagarinho para norte, para as mãos dos colombianos. Velasco substiutui Bellaúnde , ambos ensaiam reformas agrárias: o Plan Inca de 1969 sucede ao projecto Ceja de la Selva ( a Sobrancelha da Selva, a  estrada que ligaria o Peru à sua parcela de floresta amazónica e a redestribuição de propriedades superiores a 150 hectares). Em ambos os países as guerrilhas, sobretudo subordinadas ao conceito de Che Guevara de  Guerrilla Foco, de um lado e  a pressão americana do outro ajudaram ao fracassso das boas intenções. No meio deste caldo andino pouco favorável à coca, os colombianos vão , como dissemos, começar a fazer as suas contas. Ou seja, de uma situação de produção controlada e legal  ( ver número anterior desta série) no início do século  passamos, em mais ou menos 60 anos,  à sua entrega aos colombianos.

Um pouco ( com diferenças como veremos)  como no Peru, também na Colômbia a mistura entre violência de Estado e actividade das guerrilhas  pavimentou o caminho. A seguir  à morte de Gaitán em 1948 o país entra na famosa La Violencia. Lembrando a Sícilia de Lampedusa, a luta entre  pequenos proprietários liberais e conservadores criou uma bela cultura de salteadores, contrabandistas e guerrilheiros ( estima-se em mais de 200.000 mortos até aos anos 60). Muito mais  longa e letal do que nos vizinhos andinos, nas cidades viviam os grandes proprietários rurais aos quais o conflito não tocou. Os EUA, no contexto da Guerra Fria  e  da proximidade do Canal do Panamá, fizeram o mesmo que no Peru: ajuda militar em troca ( entre o resto) do droit de regard sobre a tolerância zero face à coca e às guerrilhas.

O historial de La Violencia encontra no final dos anos 60 um Estado sequestrado e três grupos insurgentes principais: as FARC ( sovietizadas), o Ejército de Liberación Nacional  (ELN) castrista e o Ejército Popular de Liberación ( EPL)  maoísta. Isto é crucial porque explica a diferença, ou seja, a razão pela qual é na Colômbia que nascem os primeiros cartéis. O país ficou completamente alheado das zonas rurais: nem sombra de reformas agrárias mais ou menos atamancadas ou corrigidas. A La Violencia criou uma tradição de lei da selva em zonas longe da vista da capital. Quando, e lá iremos no terceiro número, os EUA resolvem atacar a marijuana mexicana, os contrabandistas e salteadores colombianos compreendem que os seus compatriotas camponeses, famintos e abandonados,  estão mais do que aptos ( coitados)  a trabalhar num negócio muito  rentável: a produção de coca,

 

 

 

 

publicado por FNV às 21:42 | link do post | comentar
Sexta-feira, 02.05.25

Não há cartéis... agora (I)

Pois é:

However, the approach needs to be nuanced, respecting national sovereignty while fostering genuine partnerships. The ongoing challenge is to refine these tools to not only achieve immediate tactical victories but also to address the root causes of drug production and consumption, thereby reducing the geopolitical tensions and unintended consequences that often accompany such efforts.

Entre a versão oficial dos EUA e autores como o  Oswaldo Zavala, ou seja, entre a esquizofrenia de um enorme mercado de drogas ( como país é o maior) que depois lhes declara guerra  e a lengalenga do marxista anti-imperialista que afinal  reduz os mexicanos a meros porteiros, alguma coisa podemos aproveitar.

 

 

Começemos pelo período menos mau. Entre a moda da folha de coca e da cocaína e a consumação plena da ilegalização.

 Os EUA fizeram  exercícios curiosos na sua  pré-história  da coca  e na primeva da cocaína. Num shot:  aproveitaram os avanços alemães, enviaram o poder científico e político para os Andes, desenvolveram ( deslocando populações inteiras de camponeses) o cultivo; depois embalaram na vendetta proibicionista e no final dos anos 50 entregaram uma agro-indústria aos traficantes.

A partir de 1884, e sempre a abrir até ao início do século seguinte, os americanos estão enamorados por ambas. A farmacêutica Parke- Davis, em Detroit,  dá o impulso ao uso recreativo e terapêutico da cocaína. Durante a penúria de colheitas, entre 1884 e 1887, envia o seu botânico -chefe, Henry Rusby, para Lima. O Peru passa a ser o principal fornecedor americano.  Justo dizer que o interesse era sobretudo na folha de coca  ( a de Trujillo, da famosa Merchandise º5 na receita original da Coca Cola). Depois vem a Lei Seca  em 1920 ( o Vosltead Act) que culmina o início da cruzada de vinte anos do novo século contra todos os vícios.

No período entre guerras os EUA interferem directamente na política de controlo de coca dos países andinos. Aslinger, à frente do poderoso FBN, orienta nova cruzada, desta vez da ONU, contra os milhares de campos de cultivo de coca andinos.  Em 1961, após a Single Convention, a coca andina é posta fora da lei.

Estão mesmo a ver quem vai substituir os laborátórios da Merck em Darmstaadt ou da Maywood em Nova Iorque...

 

 

 

 

 

 

publicado por FNV às 08:48 | link do post | comentar

mais sobre mim

pesquisar neste blog

 

Maio 2025

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

últ. comentários

  • bem vinda
  • Muito interessante- 13a leitora Será muito interes...
  • "ligeiramente desconfortável." -------------------...
  • Entretanto foi aprovada uma nova lei sobre drogas(...
  • E, por ex, o efeito da canabis depende da quantid...
  • Não. O efeito do álcool depende da quantidade cons...
  • Excelente artigo, gostei da abordagem. Visite o me...
  • Excelente artigo, gostei da abordagem. Visite o me...
  • (mesmo com atraso...sendo que o tema vem já de ha ...
  • É com muita pena que vejo que o blogue "morreu"......

Posts mais comentados

arquivos

2025
2024
2023
2022
    2021
    2020
    2019
      2018
        2017
          2016
            2015
              2014
                2013
                  2012

                  links

                  subscrever feeds

                  blogs SAPO