Sexta-feira, 16.07.21

Canabis: lições e asneiras

O Expresso desta semana traz de novo a associação entre a canabis e a esquizofrenia. Talvez um dia traga o laço autoevidente entre o álcool e o ciúme delirante / assassínio de mulheres ou entre o álcool e os acidentes de viação mortais. O teor de THC aumentou? Sem dúvida. Tem aumentado sempre:

 

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( daqui)

 

Estamos  no século XIX. O Ocidente gosta tanto do ópio como  o Oriente ( antigas categorias simplistas  do tempo colonial). As Guerras do Ópio forçaram a China a aceitar as encomendas descarregadas sobretudo pelos ingleses ( nós também traficávamos  via Macau). Jardine  e outros traficantes operavam como os galegos dos anos 80 ou o marroquinos  actuais no algarve. A conclusão do Tratado de Nanquim, em 1842, escancara  cinco portos ao ópio britânico. A 4 de Abril de  1843, Lord Ashley , na Câmara do Comuns defende a supressão do tráfico: era prejudicial a outras exportações britânica para a China  e a própria culturado ópio era aviltante para a dignidade humana. Pois era. Num ápice , com a morfina ( mas já desde o laúdano)  a classe média inglesa enamora-se da coisa. Wilde, Keats,  de Quincey dão-lhe o glamour que faltava.

Recapitulando:

Em 1805 e em 1811 Serturner publicita no Journal der Pharmazie,  a sua pesquisa: a descoberta  e extracção de um alcalóide  do ópio, a morfina

Em 1850,  Wood em Edimburgo e Hunter em Londres inventam a seringa hipodérmica

Em 1868 o parlamento inglês aprova o Pharmacy Act que passa a colocar sob controlo dos farmacêuticos a disponibilidade dos opiáceos.

 

Este brevíssimo lembrete do passado serve apenas para recordar que na História das Drogas  (a moderna, claro)  as substâncias  psicoactivas encontram sempre forma de se adequar ao interesse dos consumidores. Quando a canabis tinha um teor de THC e CBD quase irrelevante  comparado com o actual  ( 0.72% em 1976  contra os 28% actuais), o que fizeram  os decisores? Proibiram-na e responsabilizaram-na pela loucura e morte. Pior, prenderam miúdos com dois charros no bolso. Agora choram.

 

publicado por FNV às 18:11 | link do post | comentar

Bietan Jarrai

Bietan Jarrai no símbolo da ETA significa combinar a força do machado e a esperteza da serpente. A ideia de se financiar junto da narco-guerrilha sul-americana trocando assistência política e técnica por coca para depois vender esta na Europa, com o fim de adquirir armas, não é má. Resta que nunca se encontraram provas  evidentes desses negócios o que não significa que não tenham ocorrido. Trago a coisa aqui apenas como mais um exemplo da espectacular flexibilidade da geopolítica das drogas. Vale o que vale.

 

Vive em Cuba  e é um dos personagens que econtramos na melindrosa associação entre a ETA e o narcotráfico. Bem, vive em Cuba é uma força de expressão:

En Cuba —asegura-- hemos tenido el mejor ejemplo a nivel internacional de cómo se construye una constitución, el pueblo de Cuba en asambleas de vecinos y vecinas, de trabajadores del campo, de las fábricas, pescadores, estudiantes, científicos, etcétera …, han hecho propuestas en decenas de miles de asambleas expresando con absoluta libertad como quieren que sea su constitución.

Aqui têm uma pequena descrição geral dos laços, incluindo as actividades do  nosso hóspede cubano. A colaboração político-militar não oferece dúvidas,  está muito bem documentada em variadas fontes. A teoria conspirativa difundida pela ETA de que a heroína foi introduzida no País Basco pelo governo também já foi demolida, sobretudo por Pablo Garcia Varela.  Houve contactos entre a ETA e Escobar, mas aqui as coisas ficam mais interessantes porque a ETA vai atravessar entre 1995 e 1998 um período de reorganização  do autofinaciamento. O documento  interno Karramaro ( caranguejo) relata: "Toda  esta luta da esquerda abertzale  não se vê como  improvisada nem como uma resposta de raiva....nota-se nela a disciplina e a capacidade". 

As ligações entre as estruturas revolucionárias  e marxistas sul-americanas e a ETA não são  um segredo. Jose Ignacio Chaos, condenado por múltiplos assassínios em Espanha, vive na Venezuela. Seja como for, se lermos este artigo de Mauricio Rubio Pardo  com atenção constatamos que provas evidentes não existem, sendo  espinhosa a associação directa da ETA ao narcotráfico. A pista habitual é  venda de coca, obtida  via FARC ou M-19, às várias mafias italianas em troco de armas. Pista quente ou fria mas sem presas...

Nos anos 80 eram dois os principais responsáveis da logística  da ETA: Isidro Garalde ( Mammarru) e José  Arregi Erostarbe ( Fiti). Em lado nenhum encontramos ligações deles ao narcotráfico colombiano. Por outro lado, a 27 de Abril de 1986 é preso em Paris  Txomin Iturbe, o líder, digamos... político, da ETA. A extradição acaba por ser para o Gabão onde more mais tarde num acidente de viação: nunca põe um pé na selva colombiana.

 

Roberto Saviano, o autor de Gomorra,  não tem dúvidas sobre o financiamento da ETA, mas  lá acaba por confessar que a organização trabalha muito mal e não tem grande cartel  em Itália. Dados concretos também não apresenta, ainda que hoje em dia seja  pacífica a ligação entre as várias mafias e os clãs colombianos:

Ulteriore conferma dell’interesse al narcotraffico da parte delle organizzazioni riconducibili a Cosa nostra catanese
si ha con l’operazione “Equilibri”1554, del successivo mese di giugno, che ha accertato la presenza sul territorio la-
ziale del clan FRAGALA’, storicamente legato al clan catanese SANTAPAOLA-ERCOLANO, la cui piena opera-
tività si sviluppava nell’area ricompresa tra Torvajanica, Pomezia e Ardea (RM). Il clan FRAGALA’ era, tra l’altro,
dedito al traffico di sostanze stupefacenti (cocaina, marijuana, hashish) con canali di approvvigionamento in Co-
lombia e Spagna e successiva distribuzione nel territorio nazionale.

 

 

 

publicado por FNV às 13:50 | link do post | comentar

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