Do building state dos narcos mexicanos aos porteiros portugueses

Este livro é de um académico, historiador inglês, ensina história latino-americana e estudos mexicanos e tem feito incursões na história do narcotráfico  mexicano. É um observador diferente dos especializados na geopolítica das drogas. Tem falhas e é por  vezes simplista na análises, mas oferece uma perspectiva diferente que  vale  a pena ler ( até porque traça a historia da coisa mexicana até aos anos 20 do século passado)

O caso de Genaro Garcia Luna, agora preso nos EUA,  ex secetario de Seguridad Publica, merece destaque. Entre 2006 e 2012 aumentou de 6.000 para  37.000 o número de polícias federais.  A tese de Benjamin Smith passa pelo building state, ou seja, o dinheiro dos cartéis ( de Sinaloa no caso de Garcia Luna) não tem  de ir todo para as contas de políticos, polícias  e militares. Serve para criar uma super-estrutura de controlo do estado e da sociedade.

Outra ideia do livro é a da actuação técnica das várias agências federais. Os subornos pago pelos cartéis  assegura a não aplicação da lei. Boa parte da violência na historia do narcotrafico mexicano passa pela recusa dos narcos em pagar. A actuação dos supostos agentes da lei acaba por ser a da selecção dos que pagam e dos caloteiros. As guerras de narcos  que vemos nas séries televisivas são também um subproduto desta selecção.

 

No outro dia perguntavam-me no twitter  como é que sendo Portugal um fabuloso narcoentreposto ( só nos últimos oito dias  foram apreendidas 3 toneladas de haxixe em duas operações da PJ) não existe violência associada ao narcotráfico. Não é assim tão estranho. A Costa Rica, um paraíso da biodiversidade e do turismo ecológico,  tem sido aos poucos incluída na rota dos narcos mas não exibe, nem de perto, o grau de violência que existe no México. Nós, portugueses, temos muitas semelhanças com a Costa Rica e , claro, estamos sempre na berlinda:

El cargamento era inicialmente inofensivo. Algo más de seis toneladas de bananas que viajaban por mar desde Puerto Limón (Costa Rica), hasta el puerto de Setúbal (Portugal).

Portugal é uma espécie de  Costa Rica da Europa ( parafraseando o célebre Portugal é o Paraguai da Europa do Miguel Esteves Cardoso). Não temos cartéis instalados, a corrupção não é building state, somos uma espécie de porteiros,  guardas fronteiriços a quem pagam uns trocos para fechar os olhos. E pagam bem porque políticos, jornalistas e comentadores portugueses nunca se ocupam destes nefandos assuntos.

publicado por FNV às 10:07 | link do post | comentar