Domingo, 18.07.21

Mais uma lição

 

É notável como depois disto que aqui vou recordar a administração Reagan faz o mesmo e acaba envolvida num deplorável episódio  no qual os EUA funcionaram como intermediários do narcotráfico ( O Irão-Contras-Gate).

Em Junho de 1971, Nixon fez uma declaração formal ao  Congresso: as drogas eram o inimgo público nº1 e anunciou um full scale attack on the  problem of drug abuse in America: If we cannot destroy the drug menace in America,  then  it will surely  destroy us. Pediu ao Congresso 350 milhões e exigiu aos embaixadores  uma ofensiva global para pressionar os países produtores de heroína,  the most  socially destructive form of addiction in America. A 20 de Março de 1972  utilizou pela primeira vez a expressão war on drugs. Em Março do ano seguinte reestruturou  a resposta federal e criou a hoje mui famosa DEA.

Um dos alvos foi a Turquia, aliado militar dos EUA, que cumpriu:  baniu o cultivo  legal da papoila na colheita de 1973 8 ( 100.000 turcos foram à falência) . Outro foi a French Connection ( já aqui trouxe), que por acaso era mais siciliana do que francesa e que de todo o modo já estava manca porque dependia dos turcos.

Num ápice o sudeste asiático tomou as rédeas e testando com os marines durante a guerra do Vietname,  o Cambodja, o Laos e a Tailândia atingiram ceca de mil toneladas anuais de produção. A DEA calculou que depois do fecho das importações turcas o Golden Triangle assumiu cerca de 30% da quota de mercado americano. O governo apertou Banguecoque e amigos. O foco produziu resultados provisórios: o número de adictos de heroína desceu de 500.000 em 1971 para 200.000 em 1974.

Como é dos livros e da vida, as drogas encontram , como  a água, sempre uma maneira. Apareceram os mexicanos: Sinaloa, Durango e Chihuahua elevaram a sua quota de mercado americano de 39% em 1972 para 90% em 1975. Vai daí, os americanos lançam em 1975 a célebre Operação Condor : 22.887 campos de papoila são fumigados numa acção combinada com as forças terrestres  - 25.000 soldados mexicanos. Tudo com dinheiro e orientação americanos. Pois, mas grande parte era marijuana que se deslocou para a ...Colômbia. E pouco depois os colombianos perceberam que a coca era mais rentável. O resto já vocês  sabem.

 

publicado por FNV às 10:44 | link do post | comentar
Sábado, 17.07.21

Netflix real

Luis Caicedo Velandia, aka Don Lucho, morto na rua, ontem,  em Bogotá. Dito assim parece apenas mais um dia no banco do jardim. Não é .

Don Lucho constava no Guiness. É verdade: acredita-se ter lavado  qualquer coisa como 1,5 mil milhões de dólares. O seu parceiro principal foi Daniel Barrera ( aka El Loco Barrera) e trabalharam com as FARC e depois com os inimigos das FARC,  os paramilitares de extrema direita da  AUC ( Autodefensas Unidas de Colombia). E sim, claro, também se associou a El Chapo. Don Lucho foi um Nené  do mundo narco: discretíssimo, eficiente e muito bem relacionado.

Acontece que em 2010 é preso na Argentina pela DEA. A coisa terá sido desencadeada pelo célebre episodio do submarino  interceptado a 13 de Setembro de 2008 pela guarda costeira de Dallas: era enviado pelo cartel de Sinaloa e trazia 4.78 toneladas de cocaína. Depois de preso na Argentina, Don Lucho foi extraditado para os EUA e mais tarde  testemunhou contra El Chapo.

 

Pois em 2019 é libertado e regressa à Colombia.  Passeava na rua quando o passado se lembrou dele.

 

publicado por FNV às 10:05 | link do post | comentar
Sexta-feira, 16.07.21

Canabis: lições e asneiras

O Expresso desta semana traz de novo a associação entre a canabis e a esquizofrenia. Talvez um dia traga o laço autoevidente entre o álcool e o ciúme delirante / assassínio de mulheres ou entre o álcool e os acidentes de viação mortais. O teor de THC aumentou? Sem dúvida. Tem aumentado sempre:

 

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( daqui)

 

Estamos  no século XIX. O Ocidente gosta tanto do ópio como  o Oriente ( antigas categorias simplistas  do tempo colonial). As Guerras do Ópio forçaram a China a aceitar as encomendas descarregadas sobretudo pelos ingleses ( nós também traficávamos  via Macau). Jardine  e outros traficantes operavam como os galegos dos anos 80 ou o marroquinos  actuais no algarve. A conclusão do Tratado de Nanquim, em 1842, escancara  cinco portos ao ópio britânico. A 4 de Abril de  1843, Lord Ashley , na Câmara do Comuns defende a supressão do tráfico: era prejudicial a outras exportações britânica para a China  e a própria culturado ópio era aviltante para a dignidade humana. Pois era. Num ápice , com a morfina ( mas já desde o laúdano)  a classe média inglesa enamora-se da coisa. Wilde, Keats,  de Quincey dão-lhe o glamour que faltava.

Recapitulando:

Em 1805 e em 1811 Serturner publicita no Journal der Pharmazie,  a sua pesquisa: a descoberta  e extracção de um alcalóide  do ópio, a morfina

Em 1850,  Wood em Edimburgo e Hunter em Londres inventam a seringa hipodérmica

Em 1868 o parlamento inglês aprova o Pharmacy Act que passa a colocar sob controlo dos farmacêuticos a disponibilidade dos opiáceos.

 

Este brevíssimo lembrete do passado serve apenas para recordar que na História das Drogas  (a moderna, claro)  as substâncias  psicoactivas encontram sempre forma de se adequar ao interesse dos consumidores. Quando a canabis tinha um teor de THC e CBD quase irrelevante  comparado com o actual  ( 0.72% em 1976  contra os 28% actuais), o que fizeram  os decisores? Proibiram-na e responsabilizaram-na pela loucura e morte. Pior, prenderam miúdos com dois charros no bolso. Agora choram.

 

publicado por FNV às 18:11 | link do post | comentar

Bietan Jarrai

Bietan Jarrai no símbolo da ETA significa combinar a força do machado e a esperteza da serpente. A ideia de se financiar junto da narco-guerrilha sul-americana trocando assistência política e técnica por coca para depois vender esta na Europa, com o fim de adquirir armas, não é má. Resta que nunca se encontraram provas  evidentes desses negócios o que não significa que não tenham ocorrido. Trago a coisa aqui apenas como mais um exemplo da espectacular flexibilidade da geopolítica das drogas. Vale o que vale.

 

Vive em Cuba  e é um dos personagens que econtramos na melindrosa associação entre a ETA e o narcotráfico. Bem, vive em Cuba é uma força de expressão:

En Cuba —asegura-- hemos tenido el mejor ejemplo a nivel internacional de cómo se construye una constitución, el pueblo de Cuba en asambleas de vecinos y vecinas, de trabajadores del campo, de las fábricas, pescadores, estudiantes, científicos, etcétera …, han hecho propuestas en decenas de miles de asambleas expresando con absoluta libertad como quieren que sea su constitución.

Aqui têm uma pequena descrição geral dos laços, incluindo as actividades do  nosso hóspede cubano. A colaboração político-militar não oferece dúvidas,  está muito bem documentada em variadas fontes. A teoria conspirativa difundida pela ETA de que a heroína foi introduzida no País Basco pelo governo também já foi demolida, sobretudo por Pablo Garcia Varela.  Houve contactos entre a ETA e Escobar, mas aqui as coisas ficam mais interessantes porque a ETA vai atravessar entre 1995 e 1998 um período de reorganização  do autofinaciamento. O documento  interno Karramaro ( caranguejo) relata: "Toda  esta luta da esquerda abertzale  não se vê como  improvisada nem como uma resposta de raiva....nota-se nela a disciplina e a capacidade". 

As ligações entre as estruturas revolucionárias  e marxistas sul-americanas e a ETA não são  um segredo. Jose Ignacio Chaos, condenado por múltiplos assassínios em Espanha, vive na Venezuela. Seja como for, se lermos este artigo de Mauricio Rubio Pardo  com atenção constatamos que provas evidentes não existem, sendo  espinhosa a associação directa da ETA ao narcotráfico. A pista habitual é  venda de coca, obtida  via FARC ou M-19, às várias mafias italianas em troco de armas. Pista quente ou fria mas sem presas...

Nos anos 80 eram dois os principais responsáveis da logística  da ETA: Isidro Garalde ( Mammarru) e José  Arregi Erostarbe ( Fiti). Em lado nenhum encontramos ligações deles ao narcotráfico colombiano. Por outro lado, a 27 de Abril de 1986 é preso em Paris  Txomin Iturbe, o líder, digamos... político, da ETA. A extradição acaba por ser para o Gabão onde more mais tarde num acidente de viação: nunca põe um pé na selva colombiana.

 

Roberto Saviano, o autor de Gomorra,  não tem dúvidas sobre o financiamento da ETA, mas  lá acaba por confessar que a organização trabalha muito mal e não tem grande cartel  em Itália. Dados concretos também não apresenta, ainda que hoje em dia seja  pacífica a ligação entre as várias mafias e os clãs colombianos:

Ulteriore conferma dell’interesse al narcotraffico da parte delle organizzazioni riconducibili a Cosa nostra catanese
si ha con l’operazione “Equilibri”1554, del successivo mese di giugno, che ha accertato la presenza sul territorio la-
ziale del clan FRAGALA’, storicamente legato al clan catanese SANTAPAOLA-ERCOLANO, la cui piena opera-
tività si sviluppava nell’area ricompresa tra Torvajanica, Pomezia e Ardea (RM). Il clan FRAGALA’ era, tra l’altro,
dedito al traffico di sostanze stupefacenti (cocaina, marijuana, hashish) con canali di approvvigionamento in Co-
lombia e Spagna e successiva distribuzione nel territorio nazionale.

 

 

 

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Terça-feira, 13.07.21

Do building state dos narcos mexicanos aos porteiros portugueses

Este livro é de um académico, historiador inglês, ensina história latino-americana e estudos mexicanos e tem feito incursões na história do narcotráfico  mexicano. É um observador diferente dos especializados na geopolítica das drogas. Tem falhas e é por  vezes simplista na análises, mas oferece uma perspectiva diferente que  vale  a pena ler ( até porque traça a historia da coisa mexicana até aos anos 20 do século passado)

O caso de Genaro Garcia Luna, agora preso nos EUA,  ex secetario de Seguridad Publica, merece destaque. Entre 2006 e 2012 aumentou de 6.000 para  37.000 o número de polícias federais.  A tese de Benjamin Smith passa pelo building state, ou seja, o dinheiro dos cartéis ( de Sinaloa no caso de Garcia Luna) não tem  de ir todo para as contas de políticos, polícias  e militares. Serve para criar uma super-estrutura de controlo do estado e da sociedade.

Outra ideia do livro é a da actuação técnica das várias agências federais. Os subornos pago pelos cartéis  assegura a não aplicação da lei. Boa parte da violência na historia do narcotrafico mexicano passa pela recusa dos narcos em pagar. A actuação dos supostos agentes da lei acaba por ser a da selecção dos que pagam e dos caloteiros. As guerras de narcos  que vemos nas séries televisivas são também um subproduto desta selecção.

 

No outro dia perguntavam-me no twitter  como é que sendo Portugal um fabuloso narcoentreposto ( só nos últimos oito dias  foram apreendidas 3 toneladas de haxixe em duas operações da PJ) não existe violência associada ao narcotráfico. Não é assim tão estranho. A Costa Rica, um paraíso da biodiversidade e do turismo ecológico,  tem sido aos poucos incluída na rota dos narcos mas não exibe, nem de perto, o grau de violência que existe no México. Nós, portugueses, temos muitas semelhanças com a Costa Rica e , claro, estamos sempre na berlinda:

El cargamento era inicialmente inofensivo. Algo más de seis toneladas de bananas que viajaban por mar desde Puerto Limón (Costa Rica), hasta el puerto de Setúbal (Portugal).

Portugal é uma espécie de  Costa Rica da Europa ( parafraseando o célebre Portugal é o Paraguai da Europa do Miguel Esteves Cardoso). Não temos cartéis instalados, a corrupção não é building state, somos uma espécie de porteiros,  guardas fronteiriços a quem pagam uns trocos para fechar os olhos. E pagam bem porque políticos, jornalistas e comentadores portugueses nunca se ocupam destes nefandos assuntos.

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