Terça-feira, 27.04.21

Tendências sul-americanas ( III): ligações perigosas

Aqui à atrasado, como se diz no Porto,  referi  a campanha americana para eleger a Venezuela como narcoestado e com um suposto cartel oficial ( De los Soles). Abomino a enésima experiência socialista-revolucionária na América do Sul, mas as coisas são o que são. Já a Colômbia, aliada preferencial dos EUA na região, inclui aspectos deveras instrutivos.

 

O marido da actual  vice-presidente colombiana prestou depoimento como testemunha sobre o Fantasma, Guillermo León Acevedo Giraldo, aka Sebastian Colmenares.

La Fiscalía informó este martes que Álvaro Rincón Muñoz, esposo de la vicepresidenta Marta Lucía Ramírez, rendirá este miércoles a las 9 de la mañana declaración jurada como testigo en el caso de Guillermo León Acevedo, más conocido como 'Memo Fantasma' y señalado de tener nexos con paramilitares y narcotraficantes.

 

Também interessante, o irmão da vice-presidente colombiana esteve enfiado no narcotráfico até ao pescoço:

Bernardo Ramírez Blanco, de 58 años de edad, hermano de la vicepresidente de Colombia, Marta Lucía Ramírez Blanco, en 1997 fue arrestado y condenado en Estados Unidos a cuatro años y nueve meses de prisión por tráfico de heroína. Cuando tuvo oportunidad de salir libre, la fianza, de US$ 150 mil, la pagó ella junto con su esposo, Álvaro Rincón, ambos enredados hoy por sus nexos comerciales con el narcotraficante Guillermo León Acevedo Giraldo, alias “Memo Fantasma.”

Durante la campaña electoral que la llevó a la vicepresidencia de Colombia, Marta Lucía Ramírez nunca les informó a sus electores que tenía un hermano narcotraficante al que había liberado con una fianza.

 

No tempo de Escobar, e depois, os grandes narcos tinham nome. Diego Murillo Toro, aka Don Berna, os irmãos Castaño, fundadores das  paramiltares de extrema direita  Autodefensas Unidas de Colombia (AUC) em 1997,  os irmãos Galeano, Javier ( Carlos) Montanez ( Macaco) etc..

Em 2007 um tal Sebastian Colmenares co-publica, em Santa Fé de Ralito, um documento de paz e amizade ( as AUC acabavam):

 

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Hoje vive em Madrid, na urbanização La Moraleja e tem negócios represntados pela firma de advogados Zurbano & Caracas. Como diz Ana Maria Cristancho:

Todos coinciden en proteger la cara invisible del BCB. Hace apenas cuatro años el Tuso Sierra contó que –supuestamente- Memo Fantasma prestó su helicóptero a Fabio Echeverri, gerente de la primera campaña electoral de Álvaro Uribe, pero lo denominó “un muchacho”. “Esa empresa era de la organización (AUC), pero el helicóptero era de un narcotraficante que yo le puse a su disposición para moverse durante toda esa campaña política (…) Era en ese entonces de un muchacho que le decimos el Memo Fantasma, se llama Guillermo”, dijo Sierra.

 

 

 

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Terça-feira, 20.04.21

A experiência canadiana: o leopardo não muda as pintas

O projecto canadiano da legalização da canabis excitou muita gente. Pela minha parte mantive-me sempre reservado: entendi-o apenas como uma medida justa, nada mais do que isso. Adultos podem comprar  e consumir álcool ou erva sem terem de entrar no mundo do crime. As excitações vieram de dois campos opostos. Uns entendiam que era um perigo porque daria azo a outras formas de consumo, causaria mais acidentes rodoviários e atingiria grupos de risco como grávidas e adolescentes.

Outros visavam objectivos fantásticos:

The importance of youth protection was subsequently highlighted in both the Cannabis Act via the first two stated purposes of the Act [“(a) to protect the health of young persons by restricting their access to cannabis; (b) to protect young persons and others from inducements to use cannabis” (1, pg. 6)].

Como seria de esperar não aconteceu uma coisa nem a outra. O  Canadá não se entregou a uma orgia de maconha nem o consumo diminuiu:

High prevalence of youth cannabis use in this sample remains a concern. These data suggest that the Cannabis Act has not yet led to the reduction in youth cannabis use envisioned in its public health approach.

Alguns dirão que é cedo. Aceito mas não aceito. Em lado nenhum a legalização de um comportamento aditivo produziu efeitos catastróficos ou a redução do mesmo. Bem, há a excepção do Volstead Act ( a Lei Seca), que fez descambar a corrupção e a criminalidade dentro do próprio aparelho judicial norte-americano, mas isso é outra história.

O Canabis Act é minucioso ( leiam só a parte 3 e 4 se quiserem) e equilibrado. O que não podia era confirmar as malucas suspeitas de orgia legalizada nem  alcançar os fantasiosos objectivos de reduzir o consumo de uma coisa apenas porque passa a ser legal.

Os políticos e juristas ainda não aprenderam que  o mundo das substâncias psicoactivas não é totalmente regulável a partir de um gabinete alcatifado. Como tenho tentado mostrar neste blogue.

 

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Domingo, 18.04.21

Tendências sul-americanas (II). Colombia: bad weeds never die

O Plan Colombia:

Although the Plan has evolved considerably since it was approved by the U.S. Congress in July 2000, it has become shorthand for wide-ranging U.S. cooperation with Colombia to assist that country in combating drugs, guerrilla violence, and related institutional and social problems. All told, the U.S. has spent nearly $8 billion on the initiative—more than anywhere outside of the Middle East, and Iraq and Afghanistan since the end of the Cold War.

Há até quem chegue aos 10 bilões, mas o mais importante é a lei de bronze da geopolítica da drogas: coças num lado, tens comichão noutro:

As has happened repeatedly in the four-decade-old drug war, any government pressure applied in a particular location to eliminate drug production or trafficking tends to move it to another place—within a country or to other countries. The so-called balloon effect is rarely disputed, even by proponents of current drug policy.

 

 

Estamos em 2021 e temos Franscisco Ricaurte, ex-presidente da Corte Suprema de Justicia, condenado a 18 anos no âmbito do processo do chamado cartel de la Toga. O juiz recebeu subornos milionários para bloquear investigações a funcionários publicos, governadores, polícias etc , suspeitos e/ ou investigados em processo relacionados com o narcotráfico. Seria mais ou menos o mesmo  do que em Portugal o presidente do Supremo ser preso e condenado pelos mesmo motivos. E há mais magistrados implicados.

 

A extinção oficiosa das FARC produziu várias ondas de choque no que se refere às suas narco-actividades e  resultou, como é obvio, em vários dançarinos a escolher o seu par. As Autodefensas Unidas de Colombia,  o princial grupo para-militar de extrema-direita e de oposição às FARC , e também narcotraficantes,   extinguiu-se  em 2006. Vicente Castaño, o seu líder, reorganizou-se com dois dos seus lugares-tenentes:  Ever Veloza Garcia, do bloco de Calima, e Daniel Rendón Herrera ( "Don Mario") do Bloco Centauro. Nasciam os Urabeños, apenas um exemplo da actual narco-compoisção colombiana. Com a morte de Castaño, Don Mario tornou-se em 2009 o líder dos Urabeños e o mais rico e procurado traficante colombiano: 3000 homicídios creditados entre 2007 e 2009.

As coisas foram evoluindo com alguns sucessos do governo colombiano, só que  hoje  El Carmen de Bolivar e San Onofre são os pontos de contacto com as áreas  de produção de coca controladas pelos Urabeños no sul de Bolívar e no Bajo Cauca, bem como com os  centros de processamento no departamento de Córdoba e Magdalena.  A coca é enviada para o Golfo de Morrosquillo ( ver figura)  e daí para os seus destinos: EUA, via América Central ,e Europa

 

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Sábado, 17.04.21

Tendências sul-americanas (I) : Los Soles ou wag the dog

O fluxo de cocaína para a Europa corre  hoje sobre o eixo colombiano-brasileiro; para os EUA corre sobre o eixo centro-americano cabendo a distribuição aos cartéis mexicanos junto à fronteira. No entanto nos últimos anos os americanos montaram uma operação de propaganda sobre a Venezuela. O mito do Cartel de los Soles foi inteiramente desenhado pela administração americana. Começou com Obama e continuou com Trump. Foram anos e dólares  perdidos pelos EUA, mas isso é lá com eles. O problema foi outro: como quase sempre, nisto da geopolítica das drogas,  os americanos não vêem o que está debaixo do seu nariz. No caso, o Brasil. Por enquanto os canais brasileiros e caribenhos estão virados para o mercado europeu ( mais o primeiro do que o segundo), mas o dia virá em que as coisas mudarão. Os canais centro-americanos, aí sim com o Cartel del Golfo, operam quase exclusivamente para introduzir cocaína nos EUA.

Os americanos puseram cabeças  venezuelanas a prémio: Pedro Olivares (  ex chefe do Servicio Bolivariano de Intelegencia nacional) Rodolfo Mc Turck-Mora ( ex chefe da Interpol na Venezuela) e Jesus Alfredo Itriago ex chefe da área antinarcoticos do Cuerpo de Investigaciones Científicas, Penales y Criminalísticas de Venezuela.

Nestas coisas a objectividade é boa conselheira. Depois de todo o charivari sobre o suposto cartel de Los Soles ( até tem entrada na wikipedia),  a coisa caiu e ficou apenas  o que existe em muitos lados: indivíduos corruptos ( sobretudo miltares  e polícias)  a trabalhar com os narcos. Em Los Angeles até foi tema para uma série de TV famosa, The Shield.  Este artigo de um fanático defensor do regime chavista e madurista está, no entanto,  correcto. Não existe nenhuma prova da existência de um cartel para-militar organizado nem vinga a  análise da Venezuela como um narcoestado. A outra versão é um amontoado de  fantasias ( a melhor a é de que parte da coca que vem da Colômbia é para consumo interno num país que nem dinheiro tem para o papel higienico). Ainda há dois anos morreram polícias  e militares  a combater os narcos:

La madrugada del 4 de mayo fueron asesinados cuatro militares y dos funcionarios policiales venezolanos en una emboscada en Magdaleno, estado Aragua. La masacre pudo haber sido cometida por integrantes de la banda delictiva «El Tren de Aragua«, que opera desde la cárcel de Tocorón, informó una fuente policial.

O cartel  Tren de Aragua, este sim, real,  é chefiado por Héctor Rusthenford Guerrero Flores, aka Niño Guerrero, desde 2015, a partir de Tocoró. Opera em Aragua, claro, mas tambem em Carabobo, Sucre, Guarico e Trujillo. Veremos mais tarde como o ELN, herdeiro das FARC, está no centro do narcocomplexo na região.

 

O que o nosso ardente chavista não diz é que não foi a administração Trump a começar a operação Los Soles.  Começou com Obama, que pôs a Venezuela na lista negra ( ameaça para os USA) e até vem de trás, com  a morte do jornalista Mauro marcano. Aliás o tal narcoestado dominado pelos Los Soles produzia coisas como esta:

Additionally, at the Summit of the Americas in April 2009, Presidents Obama and Chávez shook hands and greeted each other. Later, during the 3-day summit, President Chávez announced he was considering sending an ambassador to the United States. Furthermore, a few days after the summit, the U.S. Chargé d’Affaires in Caracas met with the Venezuelan Ministry of Foreign Affairs, where he brought up the Diplomatic Note sent in March in which he offered to meet with ONA to discuss counternarcotics cooperation and the possibility of a Venezuelan visit to the United States. To date, Venezuelan officials have not arranged for such a meeting. However, as we previously noted, on June 25, 2009, the U.S. and Venezuelan governments agreed to reinstate the expelled ambassadors and resume full diplomatic representation.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Domingo, 11.04.21

Burner phones and dollars bills:

Ora aqui temos:

Gan, who U.S. prosecutors said operated a tight ring with another Chinese money broker, was apprehended in November 2018 by Homeland Security Investigations agents at Los Angeles International Airport on his way to Mexico from Hong Kong. The U.S. government said that Gan had moved anywhere from $25 million to $65 million in illicit drug proceeds from 2016 to the time of his arrest, according to a September court filing by Gan’s attorneys.

 

E como é este dinheiro lavado?  300 milhões de euros e, sim, incluindo Portugal. Se é via vistos Gold ( imobiliário) ou de outra forma qualquer  não sei, mas nisto do narcotráfico Portugal tem sempre um lugar especial:

Having established an infrastructure to successfully launder significant amounts of money, the Chinese network also offered money laundering and international remittance services to other organised crime groups in exchange for the payment of a negotiated percentage of the laundered funds. The Chinese network had contacts in various EU Member States including Belgium, France, Italy, the Netherlands, Portugal and the United Kingdom. The group also operated several clothing factories in the vicinity of Madrid where Chinese labourers were exploited.

 

Pedir aos nossos media que se interessem por isto é pedir a lua, eu sei.

publicado por FNV às 19:23 | link do post | comentar

Uma fantasia de controlo

Um aspecto interessante na História ( moderna) das drogas, porventura  menos captado pelos não iniciados, é percurso paralelo da história do controlo com a do descontrolo, percurso esse visível ( mas não iniciado)  a  partir da Single Convention de 1961.

 

O Opium  Protocol de 1953 foi o corolário do poder norte-americano sob a batuta do FBN de  Aslinger. Simplificando, mesmo com duas guerras pelo meio desde o Tratado de Haia de 1912, os americanos conseguiram um acordo sobre a regulamentação. Charles Vaille, antigo partisan anti-nazi, farmacêutico,  chefe informal do CND ( Comission on Narcotic Drugs)  da ONU conseguiu o controlo da quantidade de ópio produzido, consumido e armazenado   nos vários Estados signatários. Conseguiu também  a autoridade para fazer inspecções e decretar embargos.  A estabilidade dos preços foi a consequência natural do ilusório monopólio. Aslinger , por sua vez, obteve a ( também ilusória, claro) exclusividade da produção e comércio de ópio apenas para fins medicinais  e científicos.

Como seria de esperar, muitos do Estados produtores, signatários do acordo ou não, furaram os limites de produção e armazenamento e com ganhos consideráveis. A Turquia e o sudeste asiático ( Vietname, laos, Burma e Tailândia) marimbaram-se para regulamentação. Estes últimos , na década seguinte , encarregaram-se, como sabemos,  de provar a inutilidade do protocolo. Também de fora ficaram de fora os produtores sul-americanos de coca, totalmente desprezados pelos teóricos;  anos mais tarde , à sua maneira, e aplicando algumas das filosofias de controlo de preços e regras de produção, também  estlihaçaram os projectos  de Vaille e Aslinger.

 

Em1961 a Single Convention foi uma fantasia... real. Ou seja, o aperfeiçoamento do controlo internacional dos narcóticos, possível  nas condições geopolíticas do pós II Guerra ( mesmo com muitos buracos) e motorizado em 1953, culminou na reunião de Nova Iorque. Culminou é o termo exacto. Foi um documento assinado para um mundo que já não existia.  Os finais de 60 e sobretudo os anos 70 demonstraram-no com limpidez.

publicado por FNV às 16:59 | link do post | comentar
Sábado, 10.04.21

Make control, not war

As drogas existem porque nascemos com neuroreceptores para as disfrutar ( já dei muitos exemplos aqui no blogue), porque muita gente as deseja e porque sabemos plantar sintetizar, transportar e negociar. A war on drugs tem o mesmo significado do que a guerra ao presunto.

 

Sangin, Helmand ( ou Hilmand) , Afeganistão, 2005. Programa de erradicação da papoila. O presidente Karzai tinha prometido  aos embaixadores americano e inglês  a destruição  de 80 % do  cultivo na região de Helmand.

Joel Hafvenstein percorre a zona, protegido pelo walaswal local. Polícias em uniforme azul  com AK47  asseguram o trabalho dos tractores. Os camponeses assistem, impotentes, ao crescimento das suas dívidas e da sua miséria. Joel recorda os acontecimentos de  2000 quando  os Taliban conseguiram zero ópio  em Helmand. Foi bonito, mas o Mullah Omar o que conseguiu foi  aumentar de novo o preço ( estava em queda)  e enriquecer os taliban que tinham ópio em stock. A ideia americana era fazer o mesmo que na Colômbia.

 

O famoso Plan Colombia,  lançado por Clinton em 2000, e que será aqui discutido com detalhe noutra ocasião, injectou 7, 5 biliões de dólares para fumigar  a produção de coca. Mesmo que avaliação  fosse positiva em 2005 ( era muito cedo e hoje ainda é altamente controversa) , é estupidificante a igorância americana  em querer transplantar a ideia para o Afeganistão. Tal como os vírus ( tão discutidos agora) , também estas ditas pragas dependem de variáveis... antropogénicas, digamos assim.  Mais não fosse, a estrutura social no Helmand, totalmente submetida ao aparelho religioso, deveria ter feito os responsáveis americanos pensar duas vezes. Acresce, é óbvio, um monte de diferenças geográficas, históricas e  políticas  e, sobretudo, ser uma zona de guerra real ( não apenas de cartéis).

Doze anos depois da viagem de Joel Hafvenstein: Hilmand remained the country’s leading opium poppy cultivating province, followed by Kandahar, Uruzgan,2and Nangarhar.

 

 

 

 

 

 

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