Quarta-feira, 30.09.20

As rotas mundias da cocaína

As coisas estão sempre a mudar, mas até 2015 existiam três grandes grandes rotas do fluxo de cocaína:

 

1) A Southern Route, do Brasil e do Uruguai para Espanha e Portugal. Na Argentina, por exemplo, a Ruta 34 oferece 1500km  andinos da fronteira da Bolívia até Rosário. A mafia sérvia estabeleceu aí ligações e aproveita o Brsail para  descarregar cocaína em Portugal e Espanha. Darko Saric, recentemente julgado e condenado, chefiava uma das redes.

2) A Caribbean Route,  Segundo o International Narcotics Control Board, 40% da cocaína consumida na Europa chega a Portugal e Espanha via Açores. Gangues jamaicanos e  dominicanos que utilizam a ligação pós-colonial  à Martinica e Antilhas,  e estabelecidos nas Canárias, também trabalham bem com a Holanda (  e Espanha, claro).

3) A West Africa/ Sahel Route. Os colombianos começaram o franchise com voos directos da Venezuela para a Guiné Bissau. O Benin e  a Nigéria, sobretudo esta, fornecem  apoio  logístico. Em 2009 a DEA já notava a presença de carteis mexicanos em Marrocos, o que podem confirmar aqui.

4) A Southeastern Europe Route. A Bulgária é o pivot ofensivo, com o material a chegar ao porto de Varna via ligação sul-americana e África ocidental. A instabilidade na região ( Turquia, Síria  e Ucrânia) favorece , como é óbvio, a situação.

 

História, política, geografia: todas embebidas no pequeno resumo exposto. Quando alguém fala em acabar com o narcotráfico como se de um gangue de assaltos a bancos se tratasse, sorrio sempre.

Lá iremos, com mais detalhe, mas  a presença de Portugal em todos os relatórios e estudos sobre as duas primeiras rotas é notável por si mesmo ( embora não surpreendente) e pelo silêncio incrível: o assunto é tabu. Ou seja, o que deveríamos estar a perguntar é o que acontece ao dinheiro que entra no país  como paga pelos serviços de mula? Quem está a ser pago e como?

publicado por FNV às 09:59 | link do post | comentar
Domingo, 27.09.20

O silêncio da corneta

Só no Algarve, este ano, já foram apreendidas 17 toneladas de haxixe. Malas com cocaína são abandonadas no aeroporto de Lisboa ( 4 de setembro e ontem). De 2018 para 2019 a quantidade total de cocaína apreendida quase duplicou: de 5, 5 ton para 10,5.

A ausência do assunto no debate nacional é enternecedora. Faz-se  de conta de  que não existe ou, pior, de que é normal.

Este artigo, exemplo de muitos dos que têm  celebrado a descriminalização do consumo de drogas ( 2001)  em Portugal é hoje lido com um sorriso. Também esta peça da TSF apresenta Portugal como referência  mundial. Passe a babugem propagandística, nenhum problema.  Ainda  trabalhava ( e numa unidade de desintoxicação...) no então organismo público desta área ( CEPD, depois SPTT ) e já me recusava a assinar manifestos contra a simples administração de metadona. Com o apoio da FCT e do Ministério a Ciência e do Ensino Superior  pude escrever e publicar este pequeno ensaio. Ou seja, sempre considerei a criminalização  um disparate inacreditável. Outro osso é apresentar Portugal, hoje, como fazem os artigos citados,  como uma referência em mátéria de drogas. A menos que com isso também queiram dizer o resto: somos agora um famoso narco-entreposto.

 

A História moderna ( Manila, primeiro decénio do século, a experiência proibicionista do bispo Brent e do governador Taft) ) das intoxicações ensina-nos que nada é isolado, nada é independente.  Portugal transformou-se,  gradualmente, nos últimos vinte anos, num narco-entreposto. É o período da descriminalização. Não existe relação causa-efeito perceptível  nem faz sentido que exista. As causas são outras e irei acrescentar aos textos que já aqui publiquei  uma ou outra ideia, mas apresentar um narco-entreposto como referência em mátéria de drogas é uma imbecilidade de todo o tamanho:

Cocaine usually enters Europe via Spain and Portugal in the South and via ports of Belgium and the Netherlands in the North and gets further disseminated across the European drug market.

 

 

 

 

publicado por FNV às 18:55 | link do post | comentar

mais sobre mim

pesquisar neste blog

 

Setembro 2020

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
28
29

posts recentes

últ. comentários

  • E, por ex, o efeito da canabis depende da quantid...
  • Não. O efeito do álcool depende da quantidade cons...
  • Excelente artigo, gostei da abordagem. Visite o me...
  • Excelente artigo, gostei da abordagem. Visite o me...
  • (mesmo com atraso...sendo que o tema vem já de ha ...
  • É com muita pena que vejo que o blogue "morreu"......
  • Se não há corrupção digam como é possivél trocar t...
  • Então, morreu?!
  • Boas, há uns anos, quando estudava em Aveiro, era ...
  • Não sou dessa opinião. Uma pedra de cannabis detec...

Posts mais comentados

arquivos

2021
2020
2019
    2018
      2017
        2016
          2015
            2014
              2013
                2012

                links

                subscrever feeds

                blogs SAPO