Quarta-feira, 25.03.20

As drogas fazem mal? ( 2)

Claro que fazem. Bebe  meia  garrafa de aguardente  de uma vez e logo  vês ( até rimou). Não era bem isto  que os poucos ( e bons) leitores deste arquivo queriam  como resposta,  isso já eles sabem. O fazem mal  significa viciar, não é?  Não.

Podia maçar-vos com links para muitos estudos, mas confio na vossa inteligência: intuitivamente compreendem que nem todos os miúdos ( muito longe disso)  que aos 15 anos fumam um charro ficam lançados a rodar 4 ou 5 charutos por dia nem acabam , em um ou dois anos , na heroína. Como compreendem que se possa beber sem ser alcoólico nem bebedor excessivo  etc. Sobra um ponto da cultura popular: pois, mas certas drogas são muito mais viciantes e perigosas e aí a adição instala-se. Vamos a isso.

 

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O mecanismo de adição não depende da primeira experiência, depende da estrutura mental e emocional do sujeito. Uma pessoa com, por exemplo, baixo limiar de tolerância à frustração ( pouco dinheiro, um amor  perdido, pais imbecis etc) claro que pode encontrar na cocaína um alívio a repetir. Um exemplo até bem escolhido porque a cocaína só provoca dependência...psicológica.

Nos meus primeiros anos de trabalho no terreno, falando com, literalmente,  centenas de heroinodependentes,  nunca me esquecia de um episódio juvenil  que testemunhei. Tinha talvez 14-15 anos e começámos  a experimentar os primeiros charros. Desse grupo, hoje um é médico ( psiquiatra) , outro professor universitário. Um terceiro, que infelizmente iniciou uma longa carreira nas drogas ( pesadas), de cada vez que dava um bofe no charuto exclamava: man, que cena, estou a ver um clarão. Com canabis. Um clarão...

 

publicado por FNV às 10:20 | link do post | comentar
Quinta-feira, 19.03.20

As drogas fazem mal? ( 1)

As drogas fazem mal? Isto parece uma pergunta estúpida. Vem-nos logo à cabeça, por exemplo,  a tragédia  da heroína e do HIV/SIDA nos anos 80/90 ou os crimes e destruição familiar e social provocados pelo álcool.

Interessa-me o pressuposto da pergunta. Falamos de que drogas? De todas? De algumas? E falamos de que mal? E a quê?

 

Junger  conta sempre a história do slogan de uma cervejaria : É a cerveja que torna a sede agradável. Deixemos os ritos báquicos e a circulação do corno, tão caros a Junger, e reparemos como o álcool uma das mais populares drogas, está entranhado no tecido social  um pouco por todo o globo ( com a excepção muçulmana, claro). Já o material injectável sofria  abordagens populares mais ácidas e muito antes do tempo de Junger.

The Devil´s Needle, de 1916 ( na imagem ),  foi na linha de outros ( como por exemplo The Pace That Kills,  1933) que condensavam duas ideias: as drogas eram armadilhas para jovens inocentes, mas podiam ser deixadas com ar puro e desporto:

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Como é que duas substâncias psicoactivas ( a morfina e o álcool)  exibem representações sociais tão diferentes? Depende de muitos factores. A cultura do álcool, imigrante e católica ( polacos, irlandeses, italianos etc) , nos EUA, estava  já sob fogo cerrado  dos WASP ( White, Anglo-Saxon & Protestant) na altura do The Devil's Needle. Passado o vendaval da Lei Seca, o álcool  regressa alegremente, mas a heroína e a cocaína não. Pois, mas  no intervalo a Lei Seca deu cabo de metade da América ( por isso foi revogada) .

 

Ou seja, o álcool foi readmitido sem deixar de ser altamente regulado. Não sei se me explico  bem: uma droga considerada mortífera entre 1920 e 1933 passou tranquilamente a ( voltar) a ser um produto legal, animador de indústrias e garante de trabalho para  milhões de americanos.

Percebem agora melhor a pergunta inicial?

 

 

 

publicado por FNV às 10:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 17.03.20

Intenções

Sangin, Helmand ( ou Hilmand) , Afeganistão, 2005. Programa de erradicação da papoila. O presidente Karzai tinha prometido  aos embaixadores americano e inglês  a destruição  de 80 % do  cultivo na região de Helmand.

Joel Hafvenstein percorre a zona, protegido pelo walaswal local. Polícias em uniforme azul  com AK47  asseguram o trabalho dos tractores. Os camponeses assistem, impotentes, ao crescimento das suas dívidas e da sua miséria. Joel recorda os acontecimentos de  2000 quando  os Taliban conseguiram zero ópio  em Helmand. Foi bonito, mas o Mullah Omar o que conseguiu foi  aumentar de novo o preço ( estava em queda)  e enriquecer os taliban que tinham ópio em stock. A ideia americana era fazer o mesmo que na Colômbia.

 

O famoso Plan Colombia,  lançado por Clinton em 2000, e que será aqui discutido com detalhe noutra ocasião, injectou 7, 5 biliões de dólares para fumigar  a produção de coca. Mesmo que avaliação  fosse positiva em 2005 ( era muito cedo e hoje ainda é altamente controversa) , é estupidificante a igorância americana  em querer transplantar a ideia para o Afeganistão. Tal como os vírus ( tão discutidos agora) , também estas ditas pragas dependem de variáveis antropogénicas, digamos assim.  Mais não fosse, a estrutura social no Helmand, totalmente submetida ao aparelho religioso, deveria ter feito os responsáveis americanos pensar duas vezes. Acresce, óbvio, um monte de diferenças geográficas, históricas e  políticas  e, sobretudo, ser uma zona de guerra real ( não apenas de cartéis).

Doze anos depois da viagem de Joel Hafvenstein: Hilmand remained the country’s leading opium poppy cultivating province, followed by Kandahar, Uruzgan,2and Nangarhar.

 

 

 

 

 

 

publicado por FNV às 10:32 | link do post | comentar
Domingo, 15.03.20

Belladonna, droga europeia antiga

Um velho aforisma de Pascal  constitui um bom cajado nestas andanças: a memória é necessária para toda as operações da razão. Aceitar as drogas como um antiquíssimo elemento, cultural e ordinário, só pode ser feito à luz do aforisma.

 

Antes da Expansão, e durante, mas ainda com coisas nativas,  a Europa  confrontou-se com muitas substâncias psicoactivas. Na Aquitânia de Trezentos,  na Suábia, na Saxónia ou no Piemonte  já de  Seiscentos.  Para além do já discutido aqui Claviceps Purpurea, outra planta cumpriu o fado habitual : intoxicação , prazer, mistério e condenação. a Beladona ( nome simplificado).

Atroppa Belladonna, nome científico, pertence à extensa família das solanáceas  da qual até a batata faz parte. É um elegante  arbusto  de cerca de dois metros, de folhagem permanente, e que floresce nos climas temperados no início do Verão. As bagas que vêem na imagem  têm e tiveram muitos nomes:  cereja-da-feiticeira, fruto-da-bruxa, erva-do-diabo etc. É nas línguas  do norte da Europa que encontramos  os nomes mais ligados à história  da planta. Sono e morte : deddly-night shade, Dwale ( termo inglês do old norge que siginifica  torpor ou transe) Walkerbeere, do alemão  fruto das valquírias.

 

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Lineu deu-lhe o nome em honra de Atropos, a inflexível, uma das três Moiras gregas. As outras eram Cloto, a fiadeira e Laclesos, a adjudicadora. Nos óleos de Strudwick ( 1890)  e de Goya ( 1823), lá está  Cloto a desenrolar o fio da vida, Laclesos a determinar o comprimento  e Atropos a cortá-lo sem piedade.

A Beladona possui  dois alcalóides com propriedades psicoactivas: a escopolamina e a atropina. Até 1.0mg  diminuem o ritmo cardíaco e dilatam as pupilas. A partir de 2.0mg: ataxia, distúrbio do discuros e delírio. A dosagem baixa que convoca o torpor e a dilatação pupilar seria sexualmente  favorecedor , segundo tipos bons como  Rudgley, Oxenberg e Stocker, sendo Belladonna, o nome, ligado à sedução de belas venezianas e florentinas renascentistas. Pode ser, mas creio  cá para mim que a dosagem mais alta ( até certo ponto)  é que era utilizada: desinibição sexual.

 

Falaremos de outra plantas europeias antigas e do seu uso,  mas  com a Beladona podem já constatar quão antiga, e rastreável,  é a memória europeia das intoxicações. Pascal tinha razão.

 

publicado por FNV às 11:42 | link do post | comentar
Sábado, 14.03.20

Air Opium: de Vientiane a Marselha

Os militares franceses meteram o rabo entre as pernas em 1954, mas em Vientiane ficou uma bela trupe. Sobretudo...corsa.

Gerard Labensky , René "Babal" Enjabal e Bonaventure " Rock" Francisci, entre outros, ficaram célebres. Numa primeira fase, foram buscar ópio  ao Vietname e ao Cambodja.  Paul Louis Levet,  capo de Marselha, deslocou-se à região e activou a rede  que ficou conhecida como Babal Air Force.  Enormes quantidades de morfina base foram despachadas para a Europa do sul  via Tailândia. A famosa Frech Connection marselhesa  tinha aqui um dos seus pontos de apoio, mas, em bom rigor devia ter ficado conhecida como Sicilian-Corsican Connection.

Numa segunda fase, em 1955, Diem investe contra o ópio e o Vietname do Sul fica fechado.Três  anos depois, Ngo Dinh Nh reabre os dens de ópio e uma nova linha aérea é criada: Air Laos Commerciale. Todos os dias os pilotos levavam os aviões a Vientiane e recolhiam entre a 300 a 600 kilos de pasta de ópio ( cru). Anos depois, serão os americanos a montar  uma outra linha aérea de narcotráfico, inclusive em aviões militares ( até há  filmes muito conhecidos sobre isso...).  Neste artigo de 1972 do New York Times têm resumido o epílogo da coisa.

 

O que quero mostrar é apenas mais um exemplo da fragmentação e desordem das redes de narcotráfico. Por isso são muito difíceis de isolar e historiar. Sobre a famosa French Connection, produto de Hollywood  ( com o magnífico Gene Hackman no leading role):

 

The Marseille network was not a hierarchical organization under a single command, however, because the Corsican Mafia shared certain common characteristics with their Sicilian and Italian-American counterparts (...) .Corsican underworld also did not have control over the worldwide network, but was simply a link in the international, polyarchic heroin trade. The French Connection actually operated as a central part of a huge market. French drug dealers exported narcotics to the United States in response to a call from New York Sicilians. The Marseille underworld groups were, above all, commercial partners, or even sub-contractors, of the Cosa Nostra.

 

 

publicado por FNV às 11:21 | link do post | comentar
Quarta-feira, 11.03.20

LSD: das bruxas às raves

Alfonso Tostado, bispo de Ávila, e Carlos  Laguna, médico de Carlos V, concordavam pelo menos num ponto: o sabat das bruxas  devia-se ao poder de substâncias  maléficas. Que anos mais tarde esse poder ficasse célebre  pelo nome de LSD -  hoje muito popular nas trans e raves - eles não podiam imaginar.

O ergotismo é o estado de envenanamento do grão do centeio ( embora também possa afectar o trigo e a cevada)  causado por uma doença  em verões chuvosos. O culpado é um fungo, o Claviceps Purpurea, que parasita a planta com a sua esclerotia vegetativa , um esporão. O consumo  humano do centeio envenenado  produz duas intoxicações: a gangrenosa e a convulsiva. A última é a das bruxas.

 

Claviceps Purpurea era utilizado como abortivo ou como acelerador do trabalho de parto. Na Turíngia  do tempo de Frederico Guilherme foi baptizado como mutterkorn ( centeio da mãe), tendo sido proibido em Hannnover em 1778.

Fosse a  desgraçados intoxicados ou a verdadeiras bruxas, esta forma primitiva do LSD fornecia poderes sobrenaturais. Francesco Maria-Guazzo celebrizou, no seu Compendium Maleficarum, no início do século XVIII,  esses poderes: voar,  alucinações,  transformação em animais. Na Suábia, em anos fartos em queimas de bruxas, o preço do centeio era muito elevado. A associação não é difícil: o ergotismo tinha dizimado as colheitas.

 

O dr. Albert Hofmann sintetizou, em 1938,  o 25º derivado do ácido lisérgico existente no fungo. Baptizou-o de LSD 25 ( Lisergic Saure Diethilamid).

Numa bela manhã de sexta-feira, 16 de Abril de 1943,  o dr. Hofman ingeriu um cristalino  de LSD e foi dar um passeio memorável de bicicleta. Depois já se sabe, a guerra acabou, os americanos ficaram com os dados  e, muito mais tarde, nos anos 60, o dr. Leary popularizou-o.

publicado por FNV às 09:39 | link do post | comentar
Sexta-feira, 06.03.20

Brincar à repressão do narcotráfico.

Esta semana a PJ anunciou a apreensão de 500kg de cocaína escondida  em contentores num armazém do Porto: Operação Alçapão. Foi assim "desmantelada uma rede de narcotráfico".

Há quinze anos, a PJ também desmantelou - Operação Lezíria Branca - uma perigosa rede de narcotráfico e fez a ( até hoje) apreensão recorde no território continental ( Almeirim, terra dos melões) : mais de 4 toneladas.

Não sei se topam o padrão. De cada vez que é feita uma apreensão é dado um duro golpe no narcotráfico, mas este regressa sempre e em força. As coisas  têm de ser feitas, ninguém discute,  mas, e como tenho mostrado aqui, o narcotráfico  está pujantíssimo em Portugal. Assim, uma pergunta  se deve fazer:  qual é o real interesse em cortar ervas daninhas na metade esquerda do quintal e deixá-las crescer na metade direita?

 

Podem dizer-me que ninguém tem interesse em deixar crescer as daninhas na metade direita, mas é falso. Pelo menos, se não existe interesse há desinteresse. Sendo , de longe, o principal problema  criminal no país, o empenho na coisa é pouco mais do que indigente.

Como eu sou só um curioso, deixo-vos a fala de quem sabe. Carlos  Garcia, 30 anos de PJ:

 

Na Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE) éramos cerca de cem inspetores em 2002-2003. Nos últimos dez anos perdemos 60 - mais de metade. A diretoria do norte, que teve mais de 50 inspetores na droga, hoje tem nove. A diretoria do centro tem sete, Aveiro tem três inspetores para investigar droga, o mesmo em Braga, Guarda tem dois, Portimão tem seis, Funchal e Ponta Delgada têm sete cada um, Setúbal, com o volume que tem desta criminalidade, tem duas pessoas, em Leiria há um inspetor - ora, como é que é possível investigar o tráfico desta forma? Basta ver os relatórios da Europol para verificar que o tráfico de droga está no topo das prioridades internacionais. Até porque está muitas vezes interligado com outra criminalidade grave, inclusivamente o financiamento do terrorismo. Houve um aumento substancial da produção da cocaína e, consequentemente, do tráfico, e o que vemos é a redução dos efetivos. Estamos a brincar! E isto é transversal a todas as áreas.

 

 

 

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