Sábado, 29.02.20

Morfina

Florence  Nightingale usava a morfina para recuperar  das suas rondas da candeia a tratar dos doentes. Numa carta a Harriet Martineau, em 1866,  escreveu: "Alivia por 24h,  mas não melhora a vivacidade nem o intelecto de uma pessoa" ( E. Cook, The Life a of Florence Nightingale, 1913, McMillan 1943).

Nightingale , nessa carta, referia a nova moda de  injectar (  "a curious new-fangled little operation of putting opium under the skin") .  Serturner, em 1805, tinha  um sal cristalino do ópio e deu-lhe o nome de  Morphium, de Morfeu.  Dois anos antes, Charles  Derosne também tinha isolado  o mesmo alcaloide: ficou conhecido com o sal de Derosne. Em 1836 a morfina já aparecia na London Pharmacopoeia.

O resto também é conhecido. Pravaz e Wood ( 1853-1855) , quase simultaneamente, inventam a seringa hipodérmica . A mulher de Wood morreu dependente de morfina. O que nos traz ao ponto pretendido:  nessa altura a medicina acreditava que a adição ao ópio ( que  já vinha do láudano) seria  resolvida se em vez do sistema digestivo a droga fosse injectada ( Hodgson, B.,  In the arms of Morpheus - The tragic History of laudanum, morphine and patented medecines, Firefly 2001).

 

 

Como sabemos, a previsão estava errada. A História das drogas está repleta de previsões erradas.

 

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Quarta-feira, 26.02.20

As intoxicações hoje ( III) : ontem

Aristóteles não conhecia a dopamina nem via mesolímbica nem as drogas modernas, mas não precisava:

 

"De sorte que todos os prazeres ou são presentes na sensação ou passados na memória ou futuros na esperança; pois sentimos o presente, lembramos o passado e esperamos o futuro" ( Retórica, Livro I, XI).

 

O estagirita operava uma distinção ( Livro VII, VII) entre o vicioso e o destemperado. O primeiro agia  em função de uma escolha deliberada, o segundo era um doente.  O dictat clínico da cultura ocidental juntou os drogados nos dois mundos da Retórica: por um lado considera-os  doentes, por outro  percebe-os como viciosos incorrigíveis.

 

Não chegámos aqui por acaso. A política de intoxicações cometeu um erro  colossal com a emergência do LSD: o assunto tornou-se uma doença da juventude. Não é. Aprendemos com Baudelaire, Pessoa, Junger, que é um assunto também de adultos, aliás, até ao flower power era um assunto quase exclusivo de adultos. A histeria americana proibicionista dos anos 60, para além de ter  feito uma publicidade  magnífica ao dr. Leary e ao seu LSD, travou o que poderia ter sido uma política inteligente. Um exemplo: em Inglaterra, até 1964, a prescrição médica de heroína  ( Coopel, 2002, Ed La Découverte) era autorizada sob controlo do Home Office: nesse ano contavam-se 364 adictos  inscritos.

 

A socialização da intoxicação tem outras raízes, sim, mas que se ligam umas às outras. Os primeiros movimentos americanos  da Temperança, sobretudo a WCTU ( Women's Christian Temperance Uninon) e a ASLA ( Anti-Saloon League), fundadas em 1874 e 1853, atacavam o álcool não por motívos clínicos mas porque o associavam à pobreza e à indigência moral. A raíz cresceu e , como sabem, acabou na Lei Seca, o Volstead Act, em 1919. Ora, o que nessa altura também acabou, obviamente, foi a narcotic  clinic era - os programas terapêuticos  de tratamento de dependentes de opiáceos e de cocaína. Supervisionados  pelo comissário da Saúde de Nova Iorque,  a Worth Street  Clinic tratou, nesse ano,  7464 adictos ( Musto,  D.F., The American Disease: origins of narcotic control, 1999, Oxford UP). Foi tudo pelo cano abaixo.

 

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Sexta-feira, 21.02.20

As intoxicações hoje ( II) : Balzac e a Islândia.

Balzac tem um pequena incursão neste mundo: Traité des excitants modernes, publicado em 1839. Existe  uma edição portuguesa sob o título Dos Estimulantes modernos,  pela editora Usus, 1993. Avisava ele: quanto mais  civilizadas e tranquilas forem as sociedades, mais facilmente se conduzirão pela via do excesso.

 

A Islândia  tinha um problema de álcool na adolescência. O programa Youth Iceland   garantiu milhões de dólares para actividades pós-escolares dos  miúdos: podiam escolher  ballet, boxe ou que quisessem, facilidades para os pais estarem mais tempo com eles, recolher obrigatório até às dez da noite  ( meia-noite  no Verão) para jovens entre os 13 e os 16 anos. O resultado:

Today, Iceland has the lowest rate of teen substance abuse in Europe. In 1998, before Youth Iceland, 42 percent of 15- and 16-year-olds reported getting drunk in the last month. Last year, that number had dropped to 5 percent.

 

Estas coisas devem ser sempre vistas com um grão de sal, mas pelo menos este programa tem cabeça tronco e membros. Não é fanático nem proibicionista ( salvo o  tal de grão de sal do curfew...) e centra-se nos  miúdos. Em Vermont, USA,  estao a pensar em copiar o modelo ( já em curso  em muitos países) mas anotam as dificuldades que a legalização da canabis pode causar. É curioso, porque o álcool  ( já) não é ilegal na Islandia e o programa islandês começou por se focar  no abuso  na adolescência.  Aliás, convém recordar que a Islândia teve uma Lei Seca longuíssima. Começou em 1915 e, btw, provocou os divertidos efeitos habituais:

Doctors started prescribed alcohol as medicine and they did so in huge quantities, for more or less everything. Wine if you had bad nerves, and for the heart, cognac," says Palsson.

A cerveja só foi legalizada em 1993. Seja como for, o ponto é que é estranho que a canabis legalizada e com regras seja um obstáculo à implementação do programa  no Vermont. É precisamente porque as substâncias psicoactivas estão sempre disponíveis, de uma maneira ou de outra, que o programa é meritório.

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Quarta-feira, 19.02.20

Marrocos

Marrocos é um caso à parte no mundo narco. Entre 2013 e 2017 produziu 25% da canabis mundial. O cultivo, comércio e consumo são ilegais , mas tolerados quando não incentivados ( os dois primeiros). Digamos que quase um quarto da economia marroquina assenta no haxixe. É a única região grande produtora de uma substância psicoactiva natural  ( os sintéticos dos Balcãs são outro assunto) que está às  portas do mercado europeu: 14.3 km. A evolução da produção marroquina  terá estagnado nos últimos dois anos, mas também é verdade, como podem ver nas fontes citadas, que seria difícil crescer mais. Se isto está relacionado  com variações de mercado -  o ressurgimento de um novo tipo de crack a dar impulso à cocaína - isso só saberemos pelos próximos relatórios oficiais ( e através de  outras fontes ...)

 

Existem outras particularidades:

A Beldya ( ou Bildia) , a variedade tradicional, está a perder espaço para os híbridos  produzidos na Holanda: Pakistana, Amnesia e Gorilla. São mais resistentes, produzem mais  e são mais fortes, ou seja, possuem maior teor de THC. Não se sabe exactamente qual a diferença, mas podemos calcular através da variação média, uma vez que só as flores femininas têm THC, cujo teor pode variar entre 10 e 60%. O rumor de que os híbridos podem ter  cinco vezes o teor das variedades tradicionais parece disparatado, mas falta confirmação técnica segura.

A Beldya, fumada no sebsi, feito de madeira  de oliveira ou até da mais tradicional, a de damasqueiro, vai-se tornando numa atracção gourmet-turista:Sacha wa’raha ( fica bem e permanece bem).  Se volta a moda do shakshuk dal-ashu, um couscous ao qual era adicionado uns pozinhos alegretes, isso estamos para ver.

 

 

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Domingo, 16.02.20

As intoxicações hoje ( I)

Quando recordo  o meu tempo de trabalho na área, não reconheço o ambiente. Eram os anos duros da heroína e do VIH/SIDA. Na unidade de desintoxicação do ( então) CAT de Coimbra ou no bairro da Boavista ( Lisboa), bem pior do que o  Casal Ventoso. A mudança é a única constante e o observador destas coisas tem de se adaptar.

Hoje chegam-me à clínica adultos jovens que são gourmets: erva, MD's,  ácidos ( LSD) e cocaína, agora com o regresso do crack em cachimbo  mal amanhado ( o caneco). Não se sentem toxicodependentes: muitos trabalham, estudam, têm carro e não vivem na rua. Os consumos são sustentados por uma parafernália de fontes: os ordenados, os pais, pequeno ( ou médio...) tráfico entre amigos, esquemas variados.

 

É  sempre divertido visitar os grandes conspirativos. Aldous Huxley, Regresso  ao Admirável Mundo Novo:

A ração diária de Soma  era uma garantia contra a desadaptação pessoal, contra a agitação social e a divulgação de ideias subversivas (...). Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e de commpensar, engendrava visõs e de um mundo melhor, dava esperança, fortalecia a fé (...).

 

Infelizmente, a grande conspiração é menos elegante. Os opiáceos, por exemplo,  ligam-se aos mesmos neuroreceptores que se ligam os nossos opiáceos endógenos . As nossas endorfinas e dinorfinas  ligam-se ao receptores mu, delta e kappa, os opiáceos também. Ou seja, dito de modo simples, nascemos com a capacidade de apreciar as substâncias psicoactivas.

Os chamados cogumelos alucinógenicos, como, por exemplo, o amanita muscaria,  têm uma história tão antiga como a da domesticação dos auroques e das renas na vida dos  siberianos  nenets, khanty,  chukchi e outros povos . Nos restos mortais da Red Lady ( El Miron, Cantábria), datados do período magdaleniano ( 19.000 anos)  foi feita a análise aos dentes ( impecáveis) da senhora e os investigadores  encontraram vestígios do amanita muscaria, "possivelmente usado para outros propósitos que não a alimentação".

 

Ao longo desta série vamos tentar identificar a tendência actual das intoxicações. Não misturando tudo no mesmo saco, claro, porque a mudança não se faz da mesma forma em todo o lado.

 

 

 

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Quarta-feira, 12.02.20

Caso único?

2017:

Trinta e um arguidos, incluindo funcionários do banco BIC, começaram a ser julgados num caso que envolve crimes de associação criminosa, corrupção e lavagem de pelo menos 150 milhões de euros, sobretudo proveniente do tráfico internacional de droga.

Este caso não teve quase nenhum falatório. 150  milhões de narcotráfico. Já este também teve pouca atenção:

Segundo explicaram as autoridades judiciais colombianas à imprensa local, o facto de não haver acordo de extradição entre os dois países dificultou o processo. Além disso, houve problemas com a tradução e não foi possível reunir, em tempo útil, as provas necessárias para requerer a extradição do suspeito. O que é curioso é que este senhor, Assi Moosh, não é apenas um proxeneta de Cartagena: Recently, a local from Taganga claimed that the Israeli tourism entrepreneurs “take part in the town’s drug trafficking network and prostitution business.”

 

As recentes apreensões de cocaína ( Açores,  Algarve etc) têm sinalizado cidadãos colombianos. Uma coincidência: é como ir à padaria e ver lá pão.

 

 

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Domingo, 09.02.20

Drug lords da Guiné Bissau

Bubo Na Tchuto foi preso pela DEA em Abril de 2013,  em águas internacionais ao largo de Cabo Verde, e extraditado  para os EUA, onde foi julgado. Os militares Papa Camará e António Indjai  ( que  à ultima hora não compareceu  no encontro com os agentes  da DEA infiltrados) são também frequentemente referidos como associados ao narcoestado guineense ( Indjai esteve detido) . Em 2016, Tchamy Yala e Papis Djeme foram também condenados no processo de Tchuto, o primeiro julgado em Paris.

Isto entre  2013 e 2016. Depois desapareceram as condenações , mas este ano foram apreendidos 790kg de cocaína e detidas quatro pessoas ( a identidade não é conhcida).Também este  ano, outra apreensão e de quase duas toneladas. Em ambas as operações foram detidos  colombianos.

Police said the latest shipment was on its way to Islamist militants: “The drugs belong to the terrorist network Al Qaeda. The cocaine comes from Colombia. But the destination is the Arab Maghreb,” said Domingos Monteiro, deputy director of the judicial police. Não há provas desta teoria, mas a cocaína vai de Menaka para o Niger , nas zonas de Tahoua e Tillaberi e daí para rota do sul da Líbia. A via europeia começa no Egipto.

O envolvimento do  AQIM  (al-Qaeda in the Islamic Maghreb) não é de excluir. Seja como for, esta   via do Sahel tem apresentado problemas ( gangues armados no Niger e no Chade), por isso  a alternativa marítima tem-se revelado mais eficaz: Dez ( 10!) toneladas faz agora um ano em Cabo Verde. Lá iremos...

 

 

 

 

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Sábado, 08.02.20

A antiquíssima tradição portuguesa do narcotráfico

A 19 de Agosto de 1512, o junco S.João largou de Malaca rumo a Pegu, tendo descarregado no porto de Maratabão. Levava 964kg de anfião, vendeu 771kg. Dois anos depois, o mesmo  navio, a mesma rota: vendeu 786 dos 918 kg que trazia a bordo. Este é, provavelmente, o mais antigo registo  da nossa prática de comerciantes de droga ( Luis Filipe Thomaz, De Ceuta a Timor, Difel 1998).  A palavra portuguesa da altura para designar o ópio, anfião, deriva da adpatação chinesa ya-pien que por sua vez é a atrdução  do termo árabe afuyun ou afyun. V.M. Godinho discorda num detalhe: a tradução chinesa de  afyun  não é ya-pen mas afuyong.

Em Macau, a partir de 1790, foi estabelcido em mesa de vereação que as viúvas e orfãos tivessem lugar assegurado no investimento lucrativo que o tráfico do ópio proporcionava; este tráfico também beneficiava, de forma institucional, o Senado, as ordens religiosas e as caixas de  santos ( Angela Guimarães, Uma relação especial; Macau e as relações Luso-Cinesas 1780-1844, Ed CIES, 1996).

Dezenas de outros exemplos e várias secções temporais podiam aqui ser alinhavadas. Uma área que me interessa,  mas que só poderia ser estudada em full time, seria, por exemplo, a rede de abstecimento de liamba aos militares portugueses  durante a guerra colonial. Interessa porque tenho a leve impressão, digamos assim,  de que parte dessa rede foi instrumental no boom de heroína a partir do início do decénio de 80. Muito sumo haveria a extrair...

 

Tradição, espírito mercantil, localização geográfica. A santíssima trindade da nossa vocação hoje renovada e com pontos de apoio notáveis.

 

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Quinta-feira, 06.02.20

That’s like Al Capone bribing J. Edgar Hoover to keep the FBI off his back.

A corrupção e o narcotráfico são siameses. É difícil acreditar que isto tenha sido possível sem ajuda: reparem nesta produção subterrânea  espanhola: um grupo chinês, 3,4 ton de canabis apreendidas em Elche. A palavra subterrânea fica aqui tão bem como os poejos no arjamolho.

Com a cocaína a coisa pia mais fino. "Corrupção generalizada no porto de Algeciras":

Seis detenidos, entre los que se encuentra un guardia civil, y 8.740 kilos de cocaína camuflados en dos contenedores de plátanos procedentes de Colombia. La mayor aprehensión de droga realizada en España destapa “una corrupción generalizada en el puerto de Algeciras”, según fuentes de la investigación que ha desarrollado la Policía Nacional.

Um produto que muita gente quer e que ao mesmo tempo é ilegal, mas que necessita de uma logística que, por exemplo, a pornografia de menores não exige. Não estou a equivaler do ponto de vista moral, apenas do técnico. O narcotráfico implica tamanho, ruído, muita gente. É inevitável que  sustente uma rede clientelar nas áreas policiais , administrativas e judiciais. Ora, então também é certinho como a morte que o fim do narcotráfico implique a falência dessas redes: That’s like Al Capone bribing J. Edgar Hoover to keep the FBI off his back

 

Esta apreensão, porto de Sines, uma vez mais. Só se soube agora...:

A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) apreendeu em Sines, em dezembro, cerca de 415 quilogramas de cocaína, no valor de 25 milhões de euros, acondicionada em 355 placas dissimuladas no chão de um contentor, foi esta terça-feira anunciado.

Esta apreensão efetuada pela Alfândega de Setúbal, através da Delegação Aduaneira de Sines, ocorreu no dia 27 de dezembro de 2019, mas só esta terça-feira foi divulgada em comunicado.

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 04.02.20

A lei seca da canabis

Têm  neste arquivo várias coisas sobre a Prohibition ( A lei Seca), não vos maço mais. Recordar apenas o essencial: bebeu-se tanto ou mais, matou-se mais, corrompeu-se ( muito ) mais. Já temos uma fábrica de canabis medicinal ( para exportação e a granel). Se  adoptarmos  o modelo canadiano ou americano ( 33  estados), poderá  comercializar em Portugal  canabis medicinal? Não. Comercializará canabis. Ponto.

A planta contêm mais de  100 canabinóides,  o THC ( Delta-9-tetrahidrocanabinóide) e o CBD  ( canabidiol) também  estão presentes na dita canabis medicinal.

"for instance there's not a lot of science on vaporisation or orally ingested cannabis products as opposed to smoking the product. "And we know that in non-tolerant users, very low doses can produce strong drug effects and impairment - so there's only a narrow window of dosing to get an acute drug effect without impairment".

Este bruaá sobre a canabis medicinal é disparatado. A morfina, a codeína, a tebaína são opióides  e a semi-sintética  hidrocodona ( di-hidrocodeína,  o célebre vicodin do dr House) são expressões medicinais do ópio e  produzidas em todo o mundo industrializado. Quid novis? A resposta está na percepção do menor perigo da canabis quando comparada com os opióides mas também noutro detalhe: a canabis dita medicinal é igual á da rua.

 

Em Dezembro de 2005 três reclusos da cadeia de Custóias morreram durante o sono. Estavam sob  um programa de metadona. . A autópsia, publicitada no mês seguinte, não esclareceu as causas da morte. Qualquer droga pode ser letal:

O hidroclorido de metadona foi sintetizado na Alemanha em 1939 pela I.G. Farbenkonzern,  do grupo Hoechst. Apesar de muita gente estar familiarizada com a droga ela é um dos opiáceos mais recentes. Só nos finais dos anos sessenta o programa Dole-Nyswander a recuperou como terapêutica de substituição. Como acontece com qualquer opiáceo de substituição, é altamente recomendável que não seja misturado com outros opiáceos ( heroína ou derivados de morfina) dado que os neuroreceptores são malta sensível. Mas um dos problemas mais comuns é até a sobredosagem de metadona. Seja porque no início do tratamento o grau de tolerância do sujeito foi mal avaliado, seja porque se manipulou inconvenientemente a dosagem: isto não deverá acontecer se as doses forem sempre tomadas na presença de pessoal clínico, impedindo assim a acumulação para pequeno tráfico. Pelo que se leu, os sintomas que o sobrevivente do grupo apresentava - vagamente designados como problemas respiratórios - são comuns em sobredosagem de metadona: depressão respiratória que pode acarretar a paragem respiratória num intervalo de 2 a 4 horas, broncoespasmos, hipotensão, edema agudo do pulmão, etc.

 

É conveniente fazer aqui um ponto da situação. Não sou um curioso das drogas . Na  minha carreira trabalhei na área das drogas nos tempos duros da heroína ( finais de 80- anos 90). Fiz de tudo um pouco: trabalho de rua no HIV/SIDA, prevenção e, sobretudo, cinco anos na primeira unidade de desintoxicação  do país ( o Centro das  Taipas era um sistema misto detox/recobro). Pois bem, nunca conheci um dependente apenas de canabis.

 

Isto não significa que a erva seja uma substância psicoactiva inofensiva: não existe tal coisa. O álcool não é inofensivo como podem comprovar se beberem uma garrafa de gin em cinco minutos. Ora, a canabis dita medicinal, sendo igual à da rua, é, em muito lado, já  vendida legalmente. A Lei Seca  está a acabar, começa o confronto  com a realidade: dizer que não é tabaco, explicar efeitos, contra-indicações, regular. É o que acontece quando se retira  ao narcotráfico o monopólio da venda.  A vida é perigosa, mas ninguém deixa de viver por isso.

 

 

 

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