Domingo, 18.07.21

Mais uma lição

 

É notável como depois disto que aqui vou recordar a administração Reagan faz o mesmo e acaba envolvida num deplorável episódio  no qual os EUA funcionaram como intermediários do narcotráfico ( O Irão-Contras-Gate).

Em Junho de 1971, Nixon fez uma declaração formal ao  Congresso: as drogas eram o inimgo público nº1 e anunciou um full scale attack on the  problem of drug abuse in America: If we cannot destroy the drug menace in America,  then  it will surely  destroy us. Pediu ao Congresso 350 milhões e exigiu aos embaixadores  uma ofensiva global para pressionar os países produtores de heroína,  the most  socially destructive form of addiction in America. A 20 de Março de 1972  utilizou pela primeira vez a expressão war on drugs. Em Março do ano seguinte reestruturou  a resposta federal e criou a hoje mui famosa DEA.

Um dos alvos foi a Turquia, aliado militar dos EUA, que cumpriu:  baniu o cultivo  legal da papoila na colheita de 1973 8 ( 100.000 turcos foram à falência) . Outro foi a French Connection ( já aqui trouxe), que por acaso era mais siciliana do que francesa e que de todo o modo já estava manca porque dependia dos turcos.

Num ápice o sudeste asiático tomou as rédeas e testando com os marines durante a guerra do Vietname,  o Cambodja, o Laos e a Tailândia atingiram ceca de mil toneladas anuais de produção. A DEA calculou que depois do fecho das importações turcas o Golden Triangle assumiu cerca de 30% da quota de mercado americano. O governo apertou Banguecoque e amigos. O foco produziu resultados provisórios: o número de adictos de heroína desceu de 500.000 em 1971 para 200.000 em 1974.

Como é dos livros e da vida, as drogas encontram , como  a água, sempre uma maneira. Apareceram os mexicanos: Sinaloa, Durango e Chihuahua elevaram a sua quota de mercado americano de 39% em 1972 para 90% em 1975. Vai daí, os americanos lançam em 1975 a célebre Operação Condor : 22.887 campos de papoila são fumigados numa acção combinada com as forças terrestres  - 25.000 soldados mexicanos. Tudo com dinheiro e orientação americanos. Pois, mas grande parte era marijuana que se deslocou para a ...Colômbia. E pouco depois os colombianos perceberam que a coca era mais rentável. O resto já vocês  sabem.

 

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Sábado, 17.07.21

Netflix real

Luis Caicedo Velandia, aka Don Lucho, morto na rua, ontem,  em Bogotá. Dito assim parece apenas mais um dia no banco do jardim. Não é .

Don Lucho constava no Guiness. É verdade: acredita-se ter lavado  qualquer coisa como 1,5 mil milhões de dólares. O seu parceiro principal foi Daniel Barrera ( aka El Loco Barrera) e trabalharam com as FARC e depois com os inimigos das FARC,  os paramilitares de extrema direita da  AUC ( Autodefensas Unidas de Colombia). E sim, claro, também se associou a El Chapo. Don Lucho foi um Nené  do mundo narco: discretíssimo, eficiente e muito bem relacionado.

Acontece que em 2010 é preso na Argentina pela DEA. A coisa terá sido desencadeada pelo célebre episodio do submarino  interceptado a 13 de Setembro de 2008 pela guarda costeira de Dallas: era enviado pelo cartel de Sinaloa e trazia 4.78 toneladas de cocaína. Depois de preso na Argentina, Don Lucho foi extraditado para os EUA e mais tarde  testemunhou contra El Chapo.

 

Pois em 2019 é libertado e regressa à Colombia.  Passeava na rua quando o passado se lembrou dele.

 

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Sexta-feira, 16.07.21

Canabis: lições e asneiras

O Expresso desta semana traz de novo a associação entre a canabis e a esquizofrenia. Talvez um dia traga o laço autoevidente entre o álcool e o ciúme delirante / assassínio de mulheres ou entre o álcool e os acidentes de viação mortais. O teor de THC aumentou? Sem dúvida. Tem aumentado sempre:

 

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( daqui)

 

Estamos  no século XIX. O Ocidente gosta tanto do ópio como  o Oriente ( antigas categorias simplistas  do tempo colonial). As Guerras do Ópio forçaram a China a aceitar as encomendas descarregadas sobretudo pelos ingleses ( nós também traficávamos  via Macau). Jardine  e outros traficantes operavam como os galegos dos anos 80 ou o marroquinos  actuais no algarve. A conclusão do Tratado de Nanquim, em 1842, escancara  cinco portos ao ópio britânico. A 4 de Abril de  1843, Lord Ashley , na Câmara do Comuns defende a supressão do tráfico: era prejudicial a outras exportações britânica para a China  e a própria culturado ópio era aviltante para a dignidade humana. Pois era. Num ápice , com a morfina ( mas já desde o laúdano)  a classe média inglesa enamora-se da coisa. Wilde, Keats,  de Quincey dão-lhe o glamour que faltava.

Recapitulando:

Em 1805 e em 1811 Serturner publicita no Journal der Pharmazie,  a sua pesquisa: a descoberta  e extracção de um alcalóide  do ópio, a morfina

Em 1850,  Wood em Edimburgo e Hunter em Londres inventam a seringa hipodérmica

Em 1868 o parlamento inglês aprova o Pharmacy Act que passa a colocar sob controlo dos farmacêuticos a disponibilidade dos opiáceos.

 

Este brevíssimo lembrete do passado serve apenas para recordar que na História das Drogas  (a moderna, claro)  as substâncias  psicoactivas encontram sempre forma de se adequar ao interesse dos consumidores. Quando a canabis tinha um teor de THC e CBD quase irrelevante  comparado com o actual  ( 0.72% em 1976  contra os 28% actuais), o que fizeram  os decisores? Proibiram-na e responsabilizaram-na pela loucura e morte. Pior, prenderam miúdos com dois charros no bolso. Agora choram.

 

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Bietan Jarrai

Bietan Jarrai no símbolo da ETA significa combinar a força do machado e a esperteza da serpente. A ideia de se financiar junto da narco-guerrilha sul-americana trocando assistência política e técnica por coca para depois vender esta na Europa, com o fim de adquirir armas, não é má. Resta que nunca se encontraram provas  evidentes desses negócios o que não significa que não tenham ocorrido. Trago a coisa aqui apenas como mais um exemplo da espectacular flexibilidade da geopolítica das drogas. Vale o que vale.

 

Vive em Cuba  e é um dos personagens que econtramos na melindrosa associação entre a ETA e o narcotráfico. Bem, vive em Cuba é uma força de expressão:

En Cuba —asegura-- hemos tenido el mejor ejemplo a nivel internacional de cómo se construye una constitución, el pueblo de Cuba en asambleas de vecinos y vecinas, de trabajadores del campo, de las fábricas, pescadores, estudiantes, científicos, etcétera …, han hecho propuestas en decenas de miles de asambleas expresando con absoluta libertad como quieren que sea su constitución.

Aqui têm uma pequena descrição geral dos laços, incluindo as actividades do  nosso hóspede cubano. A colaboração político-militar não oferece dúvidas,  está muito bem documentada em variadas fontes. A teoria conspirativa difundida pela ETA de que a heroína foi introduzida no País Basco pelo governo também já foi demolida, sobretudo por Pablo Garcia Varela.  Houve contactos entre a ETA e Escobar, mas aqui as coisas ficam mais interessantes porque a ETA vai atravessar entre 1995 e 1998 um período de reorganização  do autofinaciamento. O documento  interno Karramaro ( caranguejo) relata: "Toda  esta luta da esquerda abertzale  não se vê como  improvisada nem como uma resposta de raiva....nota-se nela a disciplina e a capacidade". 

As ligações entre as estruturas revolucionárias  e marxistas sul-americanas e a ETA não são  um segredo. Jose Ignacio Chaos, condenado por múltiplos assassínios em Espanha, vive na Venezuela. Seja como for, se lermos este artigo de Mauricio Rubio Pardo  com atenção constatamos que provas evidentes não existem, sendo  espinhosa a associação directa da ETA ao narcotráfico. A pista habitual é  venda de coca, obtida  via FARC ou M-19, às várias mafias italianas em troco de armas. Pista quente ou fria mas sem presas...

Nos anos 80 eram dois os principais responsáveis da logística  da ETA: Isidro Garalde ( Mammarru) e José  Arregi Erostarbe ( Fiti). Em lado nenhum encontramos ligações deles ao narcotráfico colombiano. Por outro lado, a 27 de Abril de 1986 é preso em Paris  Txomin Iturbe, o líder, digamos... político, da ETA. A extradição acaba por ser para o Gabão onde more mais tarde num acidente de viação: nunca põe um pé na selva colombiana.

 

Roberto Saviano, o autor de Gomorra,  não tem dúvidas sobre o financiamento da ETA, mas  lá acaba por confessar que a organização trabalha muito mal e não tem grande cartel  em Itália. Dados concretos também não apresenta, ainda que hoje em dia seja  pacífica a ligação entre as várias mafias e os clãs colombianos:

Ulteriore conferma dell’interesse al narcotraffico da parte delle organizzazioni riconducibili a Cosa nostra catanese
si ha con l’operazione “Equilibri”1554, del successivo mese di giugno, che ha accertato la presenza sul territorio la-
ziale del clan FRAGALA’, storicamente legato al clan catanese SANTAPAOLA-ERCOLANO, la cui piena opera-
tività si sviluppava nell’area ricompresa tra Torvajanica, Pomezia e Ardea (RM). Il clan FRAGALA’ era, tra l’altro,
dedito al traffico di sostanze stupefacenti (cocaina, marijuana, hashish) con canali di approvvigionamento in Co-
lombia e Spagna e successiva distribuzione nel territorio nazionale.

 

 

 

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Terça-feira, 13.07.21

Do building state dos narcos mexicanos aos porteiros portugueses

Este livro é de um académico, historiador inglês, ensina história latino-americana e estudos mexicanos e tem feito incursões na história do narcotráfico  mexicano. É um observador diferente dos especializados na geopolítica das drogas. Tem falhas e é por  vezes simplista na análises, mas oferece uma perspectiva diferente que  vale  a pena ler ( até porque traça a historia da coisa mexicana até aos anos 20 do século passado)

O caso de Genaro Garcia Luna, agora preso nos EUA,  ex secetario de Seguridad Publica, merece destaque. Entre 2006 e 2012 aumentou de 6.000 para  37.000 o número de polícias federais.  A tese de Benjamin Smith passa pelo building state, ou seja, o dinheiro dos cartéis ( de Sinaloa no caso de Garcia Luna) não tem  de ir todo para as contas de políticos, polícias  e militares. Serve para criar uma super-estrutura de controlo do estado e da sociedade.

Outra ideia do livro é a da actuação técnica das várias agências federais. Os subornos pago pelos cartéis  assegura a não aplicação da lei. Boa parte da violência na historia do narcotrafico mexicano passa pela recusa dos narcos em pagar. A actuação dos supostos agentes da lei acaba por ser a da selecção dos que pagam e dos caloteiros. As guerras de narcos  que vemos nas séries televisivas são também um subproduto desta selecção.

 

No outro dia perguntavam-me no twitter  como é que sendo Portugal um fabuloso narcoentreposto ( só nos últimos oito dias  foram apreendidas 3 toneladas de haxixe em duas operações da PJ) não existe violência associada ao narcotráfico. Não é assim tão estranho. A Costa Rica, um paraíso da biodiversidade e do turismo ecológico,  tem sido aos poucos incluída na rota dos narcos mas não exibe, nem de perto, o grau de violência que existe no México. Nós, portugueses, temos muitas semelhanças com a Costa Rica e , claro, estamos sempre na berlinda:

El cargamento era inicialmente inofensivo. Algo más de seis toneladas de bananas que viajaban por mar desde Puerto Limón (Costa Rica), hasta el puerto de Setúbal (Portugal).

Portugal é uma espécie de  Costa Rica da Europa ( parafraseando o célebre Portugal é o Paraguai da Europa do Miguel Esteves Cardoso). Não temos cartéis instalados, a corrupção não é building state, somos uma espécie de porteiros,  guardas fronteiriços a quem pagam uns trocos para fechar os olhos. E pagam bem porque políticos, jornalistas e comentadores portugueses nunca se ocupam destes nefandos assuntos.

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Sábado, 12.06.21

A Internacional da Estupidez

Na madrugada da última quarta feira, no estado de Guanajuto, México, um gangue roubou milhões de munições de uns camiões que circulavam. Entre o material roubado ( ou adquirido, como preferirem) estavam 87.000 muniçoes para a AR-15, produzida pela Colt, a espingarda de assalto que todos vemos nos filmes e séries americanos.

Só existe uma loja de armas no México. Nos arredores da capital na Dirección de Comercialización de Armas y Municiones de la Secretaría de la Defensa Nacional. Os mexicanos podem obter licença para possuir armas ligeiras ( pistolas e revólveres) mas têm de permanecer na habitação. As outras estão reservadas a militares, polícias e associados de clubes de caçadores ou de  atiradores desportivos. Em 2019, 34.600 homicidios ( calcula-se 100.00 nos últimos dez anos), pelo menos  um quarto são directamente atribuídos às guerras do narcotráfico.

Ora vamos lá ver então: com leis de armas tão restritas  de onde vem isto? Dos  EUA.:

Research shows that a majority of guns in Mexico can be traced to the U.S. A report from the U.S Government Accountability Office showed that 70 percent of guns seized in Mexico by Mexican authorities and submitted for tracing have a U.S. origin. This percentage remains consistent, said Bradley Engelbert, a spokesperson for the Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives. And the Trump has administration has recently taken steps to ease rules on gun exports, which enables manufacturers to sell guns in Mexico and Central America countries.

A Internacional da Estupidez funciona bem. Declara-se a war on drugs do lado norte da fronteira (USA,) mas abastece-se de armas os narcotraficantes do lado sul  (Mexico). Pior era impossível.

 

 

 

 

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Terça-feira, 27.04.21

Tendências sul-americanas ( III): ligações perigosas

Aqui à atrasado, como se diz no Porto,  referi  a campanha americana para eleger a Venezuela como narcoestado e com um suposto cartel oficial ( De los Soles). Abomino a enésima experiência socialista-revolucionária na América do Sul, mas as coisas são o que são. Já a Colômbia, aliada preferencial dos EUA na região, inclui aspectos deveras instrutivos.

 

O marido da actual  vice-presidente colombiana prestou depoimento como testemunha sobre o Fantasma, Guillermo León Acevedo Giraldo, aka Sebastian Colmenares.

La Fiscalía informó este martes que Álvaro Rincón Muñoz, esposo de la vicepresidenta Marta Lucía Ramírez, rendirá este miércoles a las 9 de la mañana declaración jurada como testigo en el caso de Guillermo León Acevedo, más conocido como 'Memo Fantasma' y señalado de tener nexos con paramilitares y narcotraficantes.

 

Também interessante, o irmão da vice-presidente colombiana esteve enfiado no narcotráfico até ao pescoço:

Bernardo Ramírez Blanco, de 58 años de edad, hermano de la vicepresidente de Colombia, Marta Lucía Ramírez Blanco, en 1997 fue arrestado y condenado en Estados Unidos a cuatro años y nueve meses de prisión por tráfico de heroína. Cuando tuvo oportunidad de salir libre, la fianza, de US$ 150 mil, la pagó ella junto con su esposo, Álvaro Rincón, ambos enredados hoy por sus nexos comerciales con el narcotraficante Guillermo León Acevedo Giraldo, alias “Memo Fantasma.”

Durante la campaña electoral que la llevó a la vicepresidencia de Colombia, Marta Lucía Ramírez nunca les informó a sus electores que tenía un hermano narcotraficante al que había liberado con una fianza.

 

No tempo de Escobar, e depois, os grandes narcos tinham nome. Diego Murillo Toro, aka Don Berna, os irmãos Castaño, fundadores das  paramiltares de extrema direita  Autodefensas Unidas de Colombia (AUC) em 1997,  os irmãos Galeano, Javier ( Carlos) Montanez ( Macaco) etc..

Em 2007 um tal Sebastian Colmenares co-publica, em Santa Fé de Ralito, um documento de paz e amizade ( as AUC acabavam):

 

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Hoje vive em Madrid, na urbanização La Moraleja e tem negócios represntados pela firma de advogados Zurbano & Caracas. Como diz Ana Maria Cristancho:

Todos coinciden en proteger la cara invisible del BCB. Hace apenas cuatro años el Tuso Sierra contó que –supuestamente- Memo Fantasma prestó su helicóptero a Fabio Echeverri, gerente de la primera campaña electoral de Álvaro Uribe, pero lo denominó “un muchacho”. “Esa empresa era de la organización (AUC), pero el helicóptero era de un narcotraficante que yo le puse a su disposición para moverse durante toda esa campaña política (…) Era en ese entonces de un muchacho que le decimos el Memo Fantasma, se llama Guillermo”, dijo Sierra.

 

 

 

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Terça-feira, 20.04.21

A experiência canadiana: o leopardo não muda as pintas

O projecto canadiano da legalização da canabis excitou muita gente. Pela minha parte mantive-me sempre reservado: entendi-o apenas como uma medida justa, nada mais do que isso. Adultos podem comprar  e consumir álcool ou erva sem terem de entrar no mundo do crime. As excitações vieram de dois campos opostos. Uns entendiam que era um perigo porque daria azo a outras formas de consumo, causaria mais acidentes rodoviários e atingiria grupos de risco como grávidas e adolescentes.

Outros visavam objectivos fantásticos:

The importance of youth protection was subsequently highlighted in both the Cannabis Act via the first two stated purposes of the Act [“(a) to protect the health of young persons by restricting their access to cannabis; (b) to protect young persons and others from inducements to use cannabis” (1, pg. 6)].

Como seria de esperar não aconteceu uma coisa nem a outra. O  Canadá não se entregou a uma orgia de maconha nem o consumo diminuiu:

High prevalence of youth cannabis use in this sample remains a concern. These data suggest that the Cannabis Act has not yet led to the reduction in youth cannabis use envisioned in its public health approach.

Alguns dirão que é cedo. Aceito mas não aceito. Em lado nenhum a legalização de um comportamento aditivo produziu efeitos catastróficos ou a redução do mesmo. Bem, há a excepção do Volstead Act ( a Lei Seca), que fez descambar a corrupção e a criminalidade dentro do próprio aparelho judicial norte-americano, mas isso é outra história.

O Canabis Act é minucioso ( leiam só a parte 3 e 4 se quiserem) e equilibrado. O que não podia era confirmar as malucas suspeitas de orgia legalizada nem  alcançar os fantasiosos objectivos de reduzir o consumo de uma coisa apenas porque passa a ser legal.

Os políticos e juristas ainda não aprenderam que  o mundo das substâncias psicoactivas não é totalmente regulável a partir de um gabinete alcatifado. Como tenho tentado mostrar neste blogue.

 

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Domingo, 18.04.21

Tendências sul-americanas (II). Colombia: bad weeds never die

O Plan Colombia:

Although the Plan has evolved considerably since it was approved by the U.S. Congress in July 2000, it has become shorthand for wide-ranging U.S. cooperation with Colombia to assist that country in combating drugs, guerrilla violence, and related institutional and social problems. All told, the U.S. has spent nearly $8 billion on the initiative—more than anywhere outside of the Middle East, and Iraq and Afghanistan since the end of the Cold War.

Há até quem chegue aos 10 bilões, mas o mais importante é a lei de bronze da geopolítica da drogas: coças num lado, tens comichão noutro:

As has happened repeatedly in the four-decade-old drug war, any government pressure applied in a particular location to eliminate drug production or trafficking tends to move it to another place—within a country or to other countries. The so-called balloon effect is rarely disputed, even by proponents of current drug policy.

 

 

Estamos em 2021 e temos Franscisco Ricaurte, ex-presidente da Corte Suprema de Justicia, condenado a 18 anos no âmbito do processo do chamado cartel de la Toga. O juiz recebeu subornos milionários para bloquear investigações a funcionários publicos, governadores, polícias etc , suspeitos e/ ou investigados em processo relacionados com o narcotráfico. Seria mais ou menos o mesmo  do que em Portugal o presidente do Supremo ser preso e condenado pelos mesmo motivos. E há mais magistrados implicados.

 

A extinção oficiosa das FARC produziu várias ondas de choque no que se refere às suas narco-actividades e  resultou, como é obvio, em vários dançarinos a escolher o seu par. As Autodefensas Unidas de Colombia,  o princial grupo para-militar de extrema-direita e de oposição às FARC , e também narcotraficantes,   extinguiu-se  em 2006. Vicente Castaño, o seu líder, reorganizou-se com dois dos seus lugares-tenentes:  Ever Veloza Garcia, do bloco de Calima, e Daniel Rendón Herrera ( "Don Mario") do Bloco Centauro. Nasciam os Urabeños, apenas um exemplo da actual narco-compoisção colombiana. Com a morte de Castaño, Don Mario tornou-se em 2009 o líder dos Urabeños e o mais rico e procurado traficante colombiano: 3000 homicídios creditados entre 2007 e 2009.

As coisas foram evoluindo com alguns sucessos do governo colombiano, só que  hoje  El Carmen de Bolivar e San Onofre são os pontos de contacto com as áreas  de produção de coca controladas pelos Urabeños no sul de Bolívar e no Bajo Cauca, bem como com os  centros de processamento no departamento de Córdoba e Magdalena.  A coca é enviada para o Golfo de Morrosquillo ( ver figura)  e daí para os seus destinos: EUA, via América Central ,e Europa

 

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Sábado, 17.04.21

Tendências sul-americanas (I) : Los Soles ou wag the dog

O fluxo de cocaína para a Europa corre  hoje sobre o eixo colombiano-brasileiro; para os EUA corre sobre o eixo centro-americano cabendo a distribuição aos cartéis mexicanos junto à fronteira. No entanto nos últimos anos os americanos montaram uma operação de propaganda sobre a Venezuela. O mito do Cartel de los Soles foi inteiramente desenhado pela administração americana. Começou com Obama e continuou com Trump. Foram anos e dólares  perdidos pelos EUA, mas isso é lá com eles. O problema foi outro: como quase sempre, nisto da geopolítica das drogas,  os americanos não vêem o que está debaixo do seu nariz. No caso, o Brasil. Por enquanto os canais brasileiros e caribenhos estão virados para o mercado europeu ( mais o primeiro do que o segundo), mas o dia virá em que as coisas mudarão. Os canais centro-americanos, aí sim com o Cartel del Golfo, operam quase exclusivamente para introduzir cocaína nos EUA.

Os americanos puseram cabeças  venezuelanas a prémio: Pedro Olivares (  ex chefe do Servicio Bolivariano de Intelegencia nacional) Rodolfo Mc Turck-Mora ( ex chefe da Interpol na Venezuela) e Jesus Alfredo Itriago ex chefe da área antinarcoticos do Cuerpo de Investigaciones Científicas, Penales y Criminalísticas de Venezuela.

Nestas coisas a objectividade é boa conselheira. Depois de todo o charivari sobre o suposto cartel de Los Soles ( até tem entrada na wikipedia),  a coisa caiu e ficou apenas  o que existe em muitos lados: indivíduos corruptos ( sobretudo miltares  e polícias)  a trabalhar com os narcos. Em Los Angeles até foi tema para uma série de TV famosa, The Shield.  Este artigo de um fanático defensor do regime chavista e madurista está, no entanto,  correcto. Não existe nenhuma prova da existência de um cartel para-militar organizado nem vinga a  análise da Venezuela como um narcoestado. A outra versão é um amontoado de  fantasias ( a melhor a é de que parte da coca que vem da Colômbia é para consumo interno num país que nem dinheiro tem para o papel higienico). Ainda há dois anos morreram polícias  e militares  a combater os narcos:

La madrugada del 4 de mayo fueron asesinados cuatro militares y dos funcionarios policiales venezolanos en una emboscada en Magdaleno, estado Aragua. La masacre pudo haber sido cometida por integrantes de la banda delictiva «El Tren de Aragua«, que opera desde la cárcel de Tocorón, informó una fuente policial.

O cartel  Tren de Aragua, este sim, real,  é chefiado por Héctor Rusthenford Guerrero Flores, aka Niño Guerrero, desde 2015, a partir de Tocoró. Opera em Aragua, claro, mas tambem em Carabobo, Sucre, Guarico e Trujillo. Veremos mais tarde como o ELN, herdeiro das FARC, está no centro do narcocomplexo na região.

 

O que o nosso ardente chavista não diz é que não foi a administração Trump a começar a operação Los Soles.  Começou com Obama, que pôs a Venezuela na lista negra ( ameaça para os USA) e até vem de trás, com  a morte do jornalista Mauro marcano. Aliás o tal narcoestado dominado pelos Los Soles produzia coisas como esta:

Additionally, at the Summit of the Americas in April 2009, Presidents Obama and Chávez shook hands and greeted each other. Later, during the 3-day summit, President Chávez announced he was considering sending an ambassador to the United States. Furthermore, a few days after the summit, the U.S. Chargé d’Affaires in Caracas met with the Venezuelan Ministry of Foreign Affairs, where he brought up the Diplomatic Note sent in March in which he offered to meet with ONA to discuss counternarcotics cooperation and the possibility of a Venezuelan visit to the United States. To date, Venezuelan officials have not arranged for such a meeting. However, as we previously noted, on June 25, 2009, the U.S. and Venezuelan governments agreed to reinstate the expelled ambassadors and resume full diplomatic representation.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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